[Review] Shade, O Homem Mutável: O Grito Americano!

[Review] Shade, O Homem Mutável: O Grito Americano!

Shade, o Homem Mutável - O Grito Americano Panini

Nome Original: Shade, The Changing Man #1 ao #6
Editora/Ano: Panini, 2016 (DC/ Vertigo, 1990)
Preço/ Páginas: R$23,90/ 172 páginas
Gênero: Alternativo
Roteiro: Peter Milligan
Arte: Chris Bachalo
Sinopse: Estranho visitante vindo da dimensão meta, Rac Shade recebeu a tarefa de deter a crescente maré de insanidade que criou uma Área de Loucura que ameaça tanto Meta quanto a Terra com caos. Mas, ao cruzar a barreira entre os mundos, Shade fica preso no corpo do assassino em série Troy Grenzer e descobre que é um criminoso foragido da lei. Impossibilitado de voltar para sua dimensão natal, Shade precisa que uma pessoa seja louca o suficiente para acreditar em sua história: Kathy George, filha das últimas vítimas de Grenzer. E, enquanto tenta voltar para casa, ele também se dirige para um confronto com a personificação da psicose nacional: o Grito Americano

***

Eu tenho uma queda pelo psicodélico e surreal, só ver minhas colagens pelo site. A série do Shade era uma das coisas que mais gostaria de ver por aqui, minha expectativa estava lá em cima e fiquei mega feliz ao saber que seria publicado pela Panini. E quando se cria muita expectativa, a possibilidade de frustração é grande (como ocorreu em Guerra Civil). Felizmente, cada parte de Shade é sensacional e vale cada centavo gasto.

Shade, The Changing Man #1

Antes de partir pros comentários, vamos dar uma revisada na história da série. Shade, The Changing Man foi publicado em 1990, ainda como Universo DC. E fez parte da Invasão Britânica, quando a editora contratou roteiristas e artistas britânicos no intuito de renovarem seu próprio Universo, durante a década de 1980. Dentre eles tivemos Alan Moore revitalizando o Monstro do Pântano; Neil Gaiman com Sandman e Orquídea Negra; Grant Morrison com Homem-Animal; e Peter Milligan com Shade, um personagem criado em 1977 e que nunca teve grande notoriedade.

Milligan o tirou do limbo, reestruturou toda sua história e nos entregou uma série pra lá de psicodélica, trazendo temas polêmicos como o assassinato de JFK nesse volume ou sobre transgênero mais pra frente. E, ao contrário do que ocorre com o início de Homem-Animal e até de Sandman, Shade começa bem independente e praticamente não há intervenção de outros heróis. A série se separa da DC na edição #33, quando foi criado o selo Vertigo, pegando todas as séries adultas da DC. E permaneceu até 1996, sendo cancelada na edição #70, todas escritas por Milligan. Apesar de ter uma base de fãs e uma boa crítica, Shade nunca foi um super sucesso, mesmo entre as séries cult. Aqui no Brasil saíram as 10 primeiras edições pela Metal Pesado, num acabamento bem mequetrefe e bagunçado. Até nos EUA, a DC só publicou três encadernados, indo até a edição #18! Fica a dúvida, então, de qual será o plano da Panini. Serão somente esses três encadernados ou não? Pesquisando, parece que apenas a Espanha publicou Shade na íntegra em encadernados. É esperar pra ver.

Shade, The Changing Man #2

A história é grande, então vou resumir pra quem ainda não leu. Kathy George é uma moça rebelde que viu seus pais serem assassinados por Troy Grenzer, um serial killer, quando levava seu namorado para conhecê-los, que também acaba sendo assassinado pela polícia na confusão, em partes por ser negro e confundido com o bandido. Em choque, fica três anos presa num manicômio.

Ao sair de lá, descobre que Troy será morto na cadeira elétrica. Ela viaja o país, esperando do lado de fora da penitenciária, só pra sentir a morte do assassino. Mas algo errado acontece. O corpo de Troy recebe a alma de Shade, um estranho da dimensão Meta, que possui a missão de vir à Terra e impedir que a Loucura domine os EUA e “transborde” da Zona da Loucura, chegando à sua terra natal. Enquanto seu corpo verdadeiro está na Zona da Loucura, junto com o Traje Loucura ou Traje L (sim, há muita loucura nessa série!). Sua chegada acaba dando uma atrapalhada no espaço-tempo e consegue fugir do lugar, se encontrando com Kathy do lado de fora. Apesar de não ser Troy, Shade está em seu corpo, mas precisa da ajuda de Kathy, que custa a acreditar nessa história, mas se sente forçada a isso quando toda a cidade é tomada por uma loucura.

Shade, The Changing Man #3

A fonte de toda a confusão é o Grito Americano, a personificação da loucura americana, assim como o Ceifador era a personificação da morte na Idade Média. O Grito faz com que a loucura das pessoas sejam externalizadas, deixando a realidade um caos. E Shade, nesse primeiro encadernado, precisa enfrentar o Grito e impedir a loucura de dois indivíduos, o primeiro que é fissurado no assassinato de JFK, e o segundo que transforma Hollywood num cenário de filme de terror trash.

Há vários pontos altos na HQ, principalmente no roteiro afiado de Milligan, com diálogos excelentes. Num determinado momento, surge da terra uma cabeça gigante de JFK, uma esfinge! Mas “esta esfinge não estrangula. Esta é a esfinge Kennedy. É uma esfinge americana. Ela consome. Ela come. Ela devora a América.” E assim como a egípcia, essa esfinge também devora àqueles que não responderem seu enigma: “quem assassinou JFK?”. Particularmente, achei genial. Sabemos que os EUA possuem um fetiche com o misterioso assassinato do presidente John Fitzgerald Kennedy, em 1963, e Milligan leva essa curiosidade à uma histeria generalizada. Por detrás da trama há toda uma sátira ao patriotismo, ficando entre o limite da paródia e do bom senso, como os “Estados Mentais da América”. Lembrando que o autor é britânico.

Shade, The Changing Man #4

Este é o primeiro grande trabalho do Peter Milligan, entregando muito daquilo que ele viria a ser reconhecido mais pra frente, como a psicodelia, o nonsense, o absurdo, os temas menos usuais. É um dos roteiristas que mais gosto, autor de Enigma, X-Táticos, O Extremista e que já passou por séries como Hellblazer e X-Men.

As capas são desenhadas pelo incrível Brendan McCarthy, que possui um estilo único e que já trabalhou com Milligan em títulos inéditos por aqui, como Skin e Rogan Gosh. É como uma viagem no ácido, sua arte. Ele que fez o design dos personagens, porém a arte interna ficou por conta de um estreante Chris Bachalo, cujo traço é bonito e consegue criar distorções interessantes, mas não tão psicodélicas quanto McCarthy. Bachalo agora desenha para os X-Men e já fez Morte – O Preço da Vida, A Hora da Magia e outros.

Shade, The Changing Man #5

A Panini segue com seu acabamento padrão para encadernados de séries Vertigo, com capa cartão e simples. Infelizmente, o miolo é em papel pisa (aquele jornal), que dá uma broxada no início, mas depois nos acostumamos e fica até retrô. As cores são de Daniel Vozzo (Fábulas) e não sofreram “reformulação”, comparei com as edições da Metal Pesado e só são mais claras. Shade é uma leitura que vale muita a pena, de um texto excelente e não previsível, porém é uma loucura, não segue uma estrutura tradicional e por isso pode ser difícil de engolir para alguns.

Pra se ter uma ideia do trabalho de McCarthy, essa é uma das capas. Infelizmente, não há quase nada dele no Brasil.

Pra se ter uma ideia do trabalho de McCarthy, essa é uma das capas. Infelizmente, não há quase nada dele no Brasil.

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Estudante de Artes, consumidor compulsivo de HQs, amante da psicodelia, sonhos, nonsense, teorias da conspiração e colagens. Um mutante. Autor da Central dos Sonhos. + www.filfelix.com.br