[Especial] Rogan Gosh: Uma Jornada Psicodélica!

[Especial] Rogan Gosh: Uma Jornada Psicodélica!

Arcos Principais: One-shot.
Publicação Original/ Brasil: Rogan Gosh (Vertigo, 1994)/ Inédito.
Roteiro/ Arte: Peter Milligan/ Brendan McCarthy.

Quando era adolescente e comecei a ler HQs, me aventurando primeiro pelos scans, partindo pros mangás graças à xxxHOLIC, cheguei nas séries mais alternativas e duas, em particular, me marcaram muito: Mate Seu Namorado e Rogan Gosh. A primeira tinha comprado a edição da Tudo Em Quadrinhos, traduzido Como Matar Seu Namorado, e me apaixonei. Já Rogan Gosh eu tive contato ao conhecer o trabalho do desenhista Brendan McCarthy, que é extremamente psicodélico e sensacional. Mas só agora em 2017 que pude reler a edição, num mergulho mais profundo nessa história alucinógena criada por Peter Milligan e ainda inédita no Brasil. Review mais que especial, comemorando a marca de 500 reviews aqui no site! Com muitos spoilers e interpretações!

ROGAN GOSH: ESTRELA DO LESTE

Peter Milligan foi um dos autores da Invasão Britânica, quando os EUA começaram a importar muitos talentos do Reino Unido e arredores na década de 1980, como Alan Moore, Neil Gaiman e Grant Morrison. De todos esses, é o meu preferido. Para a Vertigo, ele criou histórias fantásticas como O Extremista, Enigma e Shade, o Homem Mutável, sendo conhecido pelo estilo alternativo e psicodélico de escrever. Já Brendan McCarthy, também de Londres, é um artista visual e parceiro de longa data do Milligan, criando juntos raridades como Skin, Paradax e Strange Days, e trabalhos onde roteiriza e desenha como a SOLO pra DC, além de ter feito o design de diversos filmes, dentre eles o recente Mad Max: Estrada da Fúria. E Rogan Gosh, publicado originalmente na revista Revolver em 1990 e mais tarde compilada em edição única pela Vertigo, em 1994, é o suprassumo dessa parceria. Talvez uma das graphic novels mais psicodélicas e cheias de camadas que você lerá, uma viagem no ácido de auto-conhecimento e hinduísmo.

A história começa com Rudyard Kipling indo à Casa da Fumaça, procurando algum guru que retire a maldição de Kali que foi colocada sobre ele, provavelmente por um conhecido ao ver Kipling saindo com um jovem. Na Casa da Fumaça ele cai em sono profundo, precisando atravessar os Véus de Maya até a terra de Rogan Gosh, outrora um dos maiores Karmanautas, seres com poderes místicos. Porém tudo se transforma numa armadilha, quando Rogan retira a maldição e a entidade Soma Swami, o Senhor das Mentiras, surge de Kipling e diz ter sido libertado por ele, passando a maldição de Kali pra Rogan, que vira uma casca murcha, com sua alma morrendo e renascendo em diferentes realidades. A primeira que vemos é Raju Dhawan, o garçom de um restaurante indiano, e Dean Cripps, o cliente aborrecido por ter terminado um relacionamento. Ambos são surpreendidos por Soma Swami, que invade o local e decapita os dois, com Rogan reencarnando em Raju, ambos indo pra uma Índia futurística e várias versões de Dean sendo narradas.

Sim, a história vai de um ponto pra outro de maneira quase aleatória, aparentemente incompreensíveis, mas que vão fazendo sentido conforme a leitura avança ou, melhor ainda, quando se lê pela segunda, terceira vez. A introdução da edição é escrita pelo McCarthy, contando seu fascínio pelas HQs indianas que encontrava num bairro de Londres, em como as artes pintadas das capas chamavam sua atenção, assim como os nomes e o teor das histórias. Ele aproveita pra citar o quanto, já na década de 1960 e 1970, as editoras americanas estavam se repetindo em adaptações da mitologia grega e nórdica. Além desses quadrinhos tratarem de hinduísmo e de toda a cultura indiana, também colocaram a Índia como um dos países que mais consome quadrinhos no mundo! Sim, nem só de Marvel e DC se vive. A editora Amar Chitra, que McCarthy fala, por exemplo, vendeu cerca de 90 milhões de cópias. O desenhista também narra seu encontro com Milligan num restaurante indiano, quando tiveram a ideia de produzirem esta HQ, que deram o nome de um prato indiano: rogan gosh. Uma introdução que reforça o nível de metalinguagem que a graphic possui. Raju e Dean são, facilmente, as versões de McCarthy e Milligan: ambos também estão num restaurante indiano, resolvendo por comer um Rogan Gosh.

Um outro ponto muito interessante é que há toneladas de referências à comida da India, além de termos e mitos próprios de sua cultura. Temos Kali, a deusa da morte; o deus-macaco Hanuman; os Véus de Maya, o mundo das ilusões; a energia Kundalini; os chakras; a simbologia da Lótus; entre tantos outros. Esteticamente, o estilo já característico de McCarthy é ampliado com detalhes que puxam pra estética indiana de ser, como a pele azul de Rogan Gosh, as cores vibrantes se contrastando, efeitos de raio x e negativo, criaturas de quatro, sei braços, colares de caveiras, meias-luas na ponta das unhas, e por aí vai. Tudo numa diagramação de ponta, com transições de cenas excelentes. No posfácio, Milligan comenta as cartas que recebeu de leitores, que não entenderam muito bem o que ele quis contar, e ele dá algumas interpretações possíveis, mas afirmando que todas elas podem coexistir normalmente. Que estamos acostumados num estilo mais linear de narrativa, a tentar separar o que é real ou sonho, sem aceitar que podem ser os dois, ou também nenhum. Sabe aquele ditado chinês da borboleta? Onde um homem sonhou que era uma borboleta e, ao acordar, não sabia se era um homem que sonhou com uma borboleta ou se era uma borboleta sonhando que era um homem? Trazendo pra cá, Peter Milligan diria que é as duas coisas. E é assim que precisamos encarar a leitura: tudo é possível.

Enquanto Raju e Dean fogem de Soma Swami e são ajudados por Hanuman, entrando na Casa da Fumaça, percorrendo os Corredores da Incerteza, abrindo as mil e uma portas, Rogan Gosh ouve seu outro eu-onírico, Raju, se aproximando, sabe que ele precisa encontrar o Rogan petrificado por Swami. Já Raju ouve a si mesmo atrás de uma porta, mas com sotaque do interior. É outra versão, uma mais caipira, que também está a procura de um guru. Em outro lugar, uma versão de Dean está acordando, se despede da namorada Mazzy e vai comprar quadrinhos, escolhendo uma edição da famosa… Rogan Gosh. Esse recurso da história dentro da história é bem característico tanto do Milligan quanto do McCarthy. Em sua história pra SOLO, por exemplo, ele utiliza dessa mesma técnica. Essa versão comenta com o vendedor que a revista é complicada, mas fica mais fácil na segunda leitura. Nessa história (da revista), vemos um Rogan Gosh azul com sua pistola espiritual, narrando como encarnou em Raju e caiu no meio do Taj Mahell, no palácio de Soma Swami, enfrentando várias ninfas e se transformando em pedra.

Dá pra perceber que a história vai e vem, criando um certo padrão que interliga todas elas, provando que não são coisas jogadas. Um desses padrões é o choro de um bebê, que Rudyard Kipling escuta no começo, quando vai pra Casa da Fumaça, e que também reaparece em outros momentos, como essa versão do Dean que compra HQs, que se incomoda com o choro da criança na casa ao lado. O Rogan da revistinha, ao ser transformado em pedra (como a versão “real”), protagoniza uma das cenas mais sensacionais da HQ, quando uma lótus cresce de sua barriga, surgindo um novo Rogan de dentro dela, deixando a casca do velho Rogan pra trás. Uma sequência foda!

Mais pra frente, num outro momento de história dentro da história, Raju e Dean tem seus corações arrancados por uma entidade pirâmide, sendo julgados e renascendo uma vez mais, aparecendo na TV de uma versão da namorada de Dean, Mary Jane, que está de saco cheio da programação televisiva. Essa outra realidade, Dean é um depressivo, que faz um monólogo sobre sentir e amor, até onde realmente sentimos as coisas. Em paralelo, Raju e Dean entram numa sala especial, ficando loucos de desejo um pelo outro, logo tirando a roupa e se pegando. Outra marca registrada do Milligan: trazer questões sobre sexo e desejo, que nesse caso volta a falar sobre o “sentir”. Ao caírem na real, Raju comenta que, como Karmanauta, nunca foi de sentir as coisas, que foi uma novidade. Legal comentar que, com todo o clima nonsense de LSD, Mary Jane é um dos apelidos da maconha.

A jornada dos dois migram sentido ao Ashram do Absoluto, onde a casca de Rogan Gosh estaria, dando as mãos e se sentido plenos, como nunca antes. Pegando que Raju e Dean seriam Milligan e McCarthy, o nível de metalinguagem só aumenta. Nesse momento, há a cena fantástica acima, onde “veem a totalidade… e o nada“. É no Ashram que conseguem vencer o Soma Swami, com Rogan voltando a si e se despedindo de Dean, que retorna à uma linha do tempo pra tentar reconquistar Mary Jane. Já em outra linha, o Dean depressivo tenta se suicidar ao conversar com Mary Jane por telefone, ligando em seguida pra um restaurante indiano, sendo atendido por Hanuman. Ou seja, mais um ciclo. Não podemos esquecer de Kipling, que volta ao mundo real (apesar de nada ser real), sentindo as misérias de todo mundo e de todas as coisas.

Rogan Gosh certamente não é uma graphic novel pra todo mundo, nem todos irão curtir seu jeito psicodélico e nonsense de ser, mas é uma leitura recomendadíssima, um retrato da loucura ácida que permeou os anos 1990. Como o autor fala no posfácio, é uma história sobre possibilidades, talvez de todas elas. E é assim que precisa ser lida: com a mente aberta; pra poder enxergar tudo. Uma das minhas HQs preferidas que, além de toda a pirotecnia, fala sobre a luta de ver o mundo como um lugar de possibilidades ou de miséria, perceber que tudo existe ao mesmo tempo em que tudo é ilusão, se permitir sentir, trazendo temas que mais tarde estariam na boca do mundo a partir de filmes como Matrix e Inception. E mesmo tendo lido algumas vezes, acho que ainda não compreendi nada, podendo estender esse review ao infinito. Nos EUA foi compilada em 1994 numa edição com extras que ajudam o leitor a se aprofundar nessa Índia de Milligan e McCarthy, e também relançada num encadernado junto de outras HQs dessa dupla criativa. Infelizmente, não há nem sinal de algum dia esse material sair no Brasil. Mas como compartilhar também é cultura, ela foi traduzida por e para nós, os fãs.

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Estudante de Artes, consumidor compulsivo de HQs, amante da psicodelia, sonhos, nonsense, teorias da conspiração e colagens. Um mutante. Autor da Central dos Sonhos. + www.filfelix.com.br