[Especial] O Extremista: Quais São Os Seus Limites?

[Especial] O Extremista: Quais São Os Seus Limites?

O Extremista - Destaque 1

Arcos Principais: Mini-série.
Publicação Original/ Brasil: The Extremist #1-4 (Vertigo, 1993)/ O Extremista #1-2 (Metal Pesado, 1999).
Roteiro/ Arte: Peter Milligan/ Ted McKeever.

O Extremista - Quais São os Seus Limites 1

O Extremista foi uma das primeiras HQs que li, quando comecei a investir nesse universo quadrinístico, quase 10 anos atrás. Lembro que ela me impactou bastante e, mesmo hoje, relendo pra escrever a resenha, ela continua atual e trazendo questões pertinentes à nossa sociedade. A mini em quatro partes, escrita pelo grande Peter Milligan (Shade, o Homem Mutável), fez parte das primeiras publicações do selo Vertigo da DC, criado em 1993 pra abordar temas mais “adultos”. Com desenhos do Ted McKeever (Super-Homem: Metrópolis), O Extremista fala sobre as noções de moral e bons costumes que possuímos, de como não ultrapassamos a linha ética imaginária e, por outro lado, o que somos capazes de fazer quando, apoiados sob o anonimato, damos um passo à frente e vamos ao extremo. Review sem spoilers!

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O EXTREMISTA

Como é colocado logo no começo da série, o Extremista não é uma pessoa ou um estado mental; o Extremista é um modo de vida. Ele é uma figura da Ordem, uma roupa vestida por alguém de tempos em tempos e que representa o controle da Ordem sobre os seu membros: aqueles que falharem, são mortos por ele. A Ordem, por sua vez, é uma rede de clubes sexuais, com as mais diversas pessoas realizando os mais diversos fetiches. A história segue em três tempos distintos, com três pessoas comuns entrando em contato com o uniforme do Extremista. Tudo começa com Judy Tanner vestindo o uniforme, sendo a Extremista, matando em nome da Ordem e procurando o assassino de seu marido, Jack, que morreu em seus braços em frente a um restaurante. Seu marido era o Extremista anterior, dado que só foi descobrir no processo de se tornar sua sucessora, já que a Ordem é secreta. A terceira pessoa é Tony Murphy, um morador do mesmo prédio onde as coisas do Extremista são guardadas, que acaba se envolvendo na história sem querer.

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A trama é desenvolvida em 4 capítulos não lineares, indo e voltando no tempo, com direito a cenas se repetindo a partir de outras perspectivas, o que gera diversas interpretações da mesma situação. O Extremista, como figura, tem o costume de gravar audios em fitas e fazer anotações para deixar como memória pro próximo que irá substituí-lo, uma tradição dentro da Ordem. As coisas se complicam quando Tony, até então alguém próximo de Jack, mas totalmente estranho à Judy, tem acesso à uma dessas fitas e descobre um mundo bem diferente do seu, fazendo a trama girar. O interessante é que tudo é muito inesperado, o leitor nunca sabe o que esperar. A gente imagina que vá acontecer algo e ocorre outra coisa, mantendo o nível realista que a Vertigo propunha na época. Mas o grande destaque de O Extremista está nas questões que ele apresenta. A Ordem é um clube onde a palavra-chave é “desejo“. Tudo é movido por desejo, como já dizia Freud 100 anos atrás. O traje do Extremista permite ao usuário adentrar um outro universo, não somente das festas nos clubes da Ordem, sentir mais que o sexo: sentir o sangue de suas vítimas.

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Com essa ideia, Milligan coloca o quanto uma pessoa é capaz de fazer estando por trás do anonimato. O que faríamos ou fazemos às escondidas? Judy, por exemplo, era uma mulher que não conversava sobre sexo com o marido, que mentia sobre a verdadeira cor do seu cabelo, se preocupava com banalidades. Ao vestir o traje, ela se transforma, ela se liberta, podemos dizer. E ao retirá-lo, quando chega em casa, se sente nua. Como se voltar pro corpo da velha Judy fosse como usar uma máscara, não ser de verdade. Mas ela não é uma personagem 8 ou 80, o que é um diferencial na narrativa: toda ação tem suas consequências; o êxtase sentido durante o sexo ou durante o assassinato, seguido por uma satisfação e libertação próprias, acabam em frustração e arrependimento. Como quase tudo na vida. Outro ponto interessante, ainda com a Judy, é a cena em que ela passa por Tony, que é um homem negro, e se incomoda por ele a encarar. Ao gravar seu áudio do dia, assume talvez não gostar de negros, que talvez devesse seguir o conselho de Patrick (um dos “chefes” da Ordem”) dee seduzi-lo ou matá-lo. Colocar um dos protagonistas como racista é uma decisão bastante arriscada, muitos podem dizer, mas é algo que Milligan aborda justamente pelo contraste. Judy se considera a boa democrata, mas assume talvez não gostar de negros. Por outro lado, o próprio Tony tem uma reação curiosa ao descobrir isso. A grande questão que fica é: até onde somos verdadeiramente honestos? Não com as pessoas, mas conosco mesmos?

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Hoje, 2017, muitos temas estão em constante debate, como a homossexualidade, gênero e estupro, sejam eles online ou não, estão aí. O que é ótimo, fazendo a população repensar seus conceitos. Mas quase 25 anos atrás, não era algo tão aberto assim. E é interessante ver alguns desses pontos pincelados na HQ, como uma discussão sobre fazer sexo com alguém inconsciente, um estupro, algo que foi manchete ano passado. Num outro momento, Patrick comenta sobre não existir homens e mulheres, ou apenas homens e mulheres, que há uma variedade muito maior de gêneros pelo mundo. A arte de Ted McKeever é bastante curiosa, com expressões e anatomias tortas, recriando um universo marginal, mas ainda delineado, bonito e colorido. Particularmente, gosto muito de seu estilo, que é menos caótico que o Duncan Fegredo, por exemplo, que tinha desenhado Enigma pro Milligan no mesmo ano. Isso ajuda a tornar a história mais concisa e menos confusa. Talvez seja um dos trabalhos autorais do Milligan de mais fácil compreensão, digamos. Tanto Enigma quanto Shade ou Rogan Gosh, todos da década de 1990, envolvem questões da loucura, com histórias dentro de histórias. E O Extremista, apesar de não linear, é mais plano. Talvez isso prejudique num ponto, já que as razões para se tornar um Extremista segue apenas a vontade de se rebelar, da dupla identidade, pouco explorando, de fato, o universo de fetiches da Ordem, que são as melhores partes. A mini foi publicada no Brasil em 1998 pela Metal Pesado, em duas edições.

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Estudante de Artes, consumidor compulsivo de HQs, amante da psicodelia, sonhos, nonsense, teorias da conspiração e colagens. Um mutante. Autor da Central dos Sonhos. + www.filfelix.com.br