[Review] Homem-Animal: O Evangelho do Coiote!

[Review] Homem-Animal: O Evangelho do Coiote!

Homem-Animal - O Evangelho do Coiote Capa
Nome Original: Animal Man #1 ao #9
Editora/Ano: Panini, 2015 (DC/ Vertigo, 1988)
Preço/ Páginas: R$26,90/ 252 páginas
Gênero: Alternativo/ Super-Herói
Roteiro: Grant Morrison
Arte: Chas Truog & Doug Hazlewood
Sinopse: Buddy Baker é um super-herói – o homem com poderes de animais. Mas, no mundo de hoje, quem precisa da ajuda de um Homem-Animal? A humanidade… ou os próprios seres dos quais ele toma emprestado os poderes? Ou seria Buddy quem mais necessita de ajuda? O trabalho de Grant Morrison na série HOMEM-ANIMAL é um marco da evolução dos quadrinhos de super-herói e na sua carreira de roteirista.
***

Durante a década de 80 houve um movimento chamado Invasão Britânica, onde a DC Comics trouxe para os EUA alguns autores e artistas britânicos, que trabalhavam na revista 2000 AD, na tentativa de reformular seu próprio universo, dar mais humanidade e sensibilidade aos personagens. Dentre os roteiristas, tivemos Alan Moore revitalizando o Monstro do Pântano; Neil Gaiman com Sandman e Orquídea Negra; Peter Milligan com Shade, o Homem Mutável (que a Panini vai publicar em breve) e Grant Morrison com Homem-Animal.

Homem-Animal - O Evangelho do Coiote Página 1

Por fazerem parte do Universo DC, quase todas essas séries possuem participação de algum herói ou vilão em seus primeiros arcos (como a Liga da Justiça em Sandman). Só alguns anos depois, em 1993, que elas ajudaram a criar e migraram para o então recém nascido selo Vertigo, saindo do Universo DC tradicional, conseguindo mais autonomia e entregando histórias mais reais e maduras. É importante frisar isso para os leitores desavisados, já que a HQ deste review possui muitas referências ao UDC, sendo bem diferente de como lemos a Vertigo hoje.

O Homem-Animal era um super-herói de terceiro escalão da DC criado na década de 60 e que nunca vingou. Com o poder de mimetizar habilidades de animais que estiverem por perto (como voo, força, agilidade…), nunca ganhou um papel de destaque. Em 1988, fazendo parte da Invasão Britânica, Grant Morrison foi convidado a revitalizar o personagem numa mini em 4 partes, que acabou se estendendo para uma série mensal. Ele escreveu 26 edições, alavancando e plantando as primeiras sementes da sua carreira, com os temas que mais tarde viriam a ser recorrentes em seu trabalho, como a contra-cultura, os direitos dos animais, terrorismo, homossexualidade, metalinguagem e por aí vai.

Homem-Animal - O Evangelho do Coiote Página 2

Essa revitalização do Homem-Animal acabou se tornando, também, de suma importância para o movimento contra o abuso e exploração animal, pois passou a tratar tanto dos animais quanto de problemas ambientais como nenhum outro herói tinha feito. O próprio Morrison se tornou vegetariano com a publicação. Isso só aumenta minha admiração pelo autor, que é um dos meus preferidos (além de ser uma belezura).

Passada as devidas introduções, este encadernado reúne as primeiras 9 histórias da fase do Morrison na série (que será publicada por aqui em 3 encadernados). As primeiras 4 fazem parte de um arco fechado, a quinta é o que dá nome ao álbum (Evangelho do Coiote), uma história paralela altamente elogiada e talvez um dos melhores trabalhos do autor, e as demais são mais soltas, mostrando a realidade em que o Homem-Animal está inserido.

Homem-Animal - O Evangelho do Coiote Página 3

Desempregado, sustentado pela esposa (Ellen) e com dois filhos pequenos (Cliff e Maxine), Buddy Baker não sabe o que fazer com seus poderes e nem vê sucesso em sua carreira como dublê, além de lidar com a falta de grana e o passado como herói aposentado. No primeiro arco em 4 partes, Morrison explora essas características do personagem, trazendo-o para um lado mais humano e deixando-o mais perto do leitor. Enquanto Baker tenta reacender sua carreira como herói, ele é convidado por uma empresa farmacêutica para investigar os ataques que estão sofrendo por um meta-humano, o Fera Buana, também conhecido como Deus Branco, que possui o poder de amalgamar animais e humanos.

Este arco é muito bom pois insere as primeiras convicções do Homem-Animal. O Fera Buana (ou Bwana) não é um vilão qualquer. Ele está atrás de sua amiga, Djuba, uma chimpanzé altamente inteligente que está sendo usada pela empresa em testes. O próprio Baker descobre que esta é uma empresa de faixada, que na verdade estão trabalhando em experiências para o Exército, alterando o nível da investigação. Dentre um confronto e outro, temos diversas passagens mais profundas (típicas do Morrison) que dão o diferencial à série, como sua posição, mais pra frente, quanto aos testes em animais serem válidos para a manutenção da vida humana, ou quanto ao vegetarianismo, como numa fala onde diz, resumidamente: “para o planeta, a vida de um rato e a de um humano tem o mesmo valor. A do rato talvez mais, pois não prejudica o seu redor.”

Na quinta história, O Evangelho do Coiote, temos um uso impressionante de metalinguagem. Billy é um coiote que anda sobre as duas pernas, perdido no deserto e que não pode ser morto. É atropelado, explodido e esquartejado por um caminhoneiro, mas sempre renasce no final. Billy, na verdade, só quer entregar uma mensagem, finalizando sua missão com a chegada do Homem-Animal. Qualquer semelhança com Papa-Léguas e o coiote não é mera coincidência.

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Beirando o surreal, Billy é um habitante de um universo animado e que, insatisfeito com o rumo violento das coisas, se revolta com Deus e é enviado ao mundo dos humanos para sofrer e garantir, assim, a paz em sua terra natal. Qualquer semelhança com Jesus também não é mera coincidência. Apesar de nem Billy e nem Buddy se entenderem, cabendo isso a nós leitores, há tantos questionamentos contra o universo do capitalismo, violência gratuita e alienação na narrativa que fica difícil de imaginar. A visão do autor quanto aos desenhos animados é incrível.

As demais histórias perdem um pouco do fôlego pois estão bastante conectadas ao UDC, principalmente com a saga Invasão (onde diversas raças alienígenas vieram à Terra para aniquilar os meta-humanos), que nunca foi republicada e hoje está no limbo, unido à falta de citações da Panini, acaba deixando o leitor meio perdido. Na 6ª história, um thanagariano (a raça da Mulher-Gavião) coloca uma bomba na Terra, focando o lado artista dessa raça, com o uso dos fractais, bastante complexa e interessante.

Homem-Animal - O Evangelho do Coiote Página 5

Temos o Máscara Vermelha e Mestre dos Espelhos nas histórias 7 e 8, e a participação de Ajax – o Caçador de Marte, na última, fechando o volume e colocando o herói como membro da Liga da Justiça da Europa, finalmente com a carreira dando certo, mas ao mesmo tempo arriscada, já que seus poderes foram afetados pela Invasão, abrindo mais possibilidades para as próximas edições.

O Homem-Animal é gente como a gente, que as vezes erra, as vezes acerta, que quer tomar um rumo na vida, ser reconhecido. E num mundo de super-heróis, é alguém que questiona como que o Besouro Azul está na Liga da Justiça e ele não. É uma série que prima pelo realismo, lidando com temas que continuam atuais, como a exploração do homem sobre o meio ambiente e violência contra a mulher. Recheado de metalinguagem e simbolismo.

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A arte é de Chas Truog que, apesar de típica dos anos 80, com direito a Buddy Baker de shortinhos jeans, muito mullet e jaqueta de couro, possui uma liberdade bastante própria, com diversos jogos de cena, intercalando uma cena isolada à outra, como num filme. As capas icônicas são do incrível Brian Bolland (Batman: A Piada Mortal). A edição da Panini possui capa cartão, miolo LWC e em CORES (diferente da versão em p/b que saiu pela Brainstore em 2003).

Homem-Animal é uma série clássica, que fez parte de um momento histórico e que alavancou a carreira do Grant Morrison, hoje um dos autores mais renomados da indústria, com obras como WE3 – Instinto de Sobrevivência, Os Invisíveis e Como Matar Seu Namorado, além de ter fases elogiadas em séries como X-Men, Liga da Justiça e Batman. É um álbum que merece ser lido por todos os fãs de quadrinhos, mas por caminhar entre a DC e a Vertigo, sem ter a delicadeza de um Neil Gaiman, acaba perdendo um pouco o fôlego, principalmente pela Panini não contextualizar o leitor. O que foi a saga Invasão? Há na página 192 até uma chamada da edição original: “acompanhe o HA na terceira parte da minissérie Invasão!”. Oi? Quem são os thanagarianos? O Besouro Azul? São pontos que podem parecer besteira, mas se tivessem notas falando sobre, acabaria por tornar este volume mais universal, tanto para os leitores atuais da Vertigo, quanto para os fãs mais antigos da DC.

nota 8,5 ;

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Estudante de Artes, consumidor compulsivo de HQs, amante da psicodelia, sonhos, nonsense, teorias da conspiração e colagens. Um mutante. Autor da Central dos Sonhos. + www.filfelix.com.br