[Review] A Saga do Monstro do Pântano - Livro Um !

[Review] A Saga do Monstro do Pântano – Livro Um !

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Nome Original: Saga of Swamp Thing #20 ao #27
Editora/Ano: Panini, 2014 (DC, 1984)
Preço/ Páginas: R$23,90/ 212 páginas
Gênero: Alternativo/ Terror
Roteiro: Alan Moore
Arte: Dan Day, Steve Bissette e John Totleben
Sinopse: Sutherland, o mesmo que mandou matar o Monstro do Pântano, contrata o criminoso Florônico para estudar o corpo da criatura e, assim, desvendar seu segredo regenerador. Florônico então descobre, surpreso, que Alec Holland, suposto alter-ego da coisa, nunca foi o Monstro do Pântano. Eram duas entidades separadas. Holland morreu na explosão de seu laboratório. O que surgiu a seguir (o Monstro) foi resultado da soma dos restos mortais de Holland com sua fórmula regeneradora de plantas.

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Finalmente chega ao Brasil a tão aguardada (e aclamada) Saga do Monstro do Pântano escrita pelo Alan Moore, o Mago das HQs criador de títulos como V de Vingança, Watchmen, Batman – A Piada Mortal, Tom Strong e outros tantos, com a arte da dupla Steve Bissette e John Totleben (Heavy Metal, Taboo). Moore pegou o título do Monstro em 1984, a partir da edição #20, e permaneceu no mesmo por quase 4 anos, sendo responsável por grandes transformações na mitologia do personagem e abrir espaço para o que seria o selo Vertigo. Essa fase foi publicada nos EUA em 6 encadernados.

O Monstro do Pântano foi criado por Len Wein (Wolverine) e Bernie Wrightson (Eerie, Creepy) em 1971 na revista House of Secrets #92, ganhando uma série própria no ano seguinte. Esse primeiro volume do Monstro (que durou de 1972-1976) apresentou o personagem ao público como Alec Holland, um cientista trabalhando numa fórmula bio-restauradora nos pântanos da Louisiana. Num atentado, seu laboratório explode e Alec recebe grandes doses de sua própria substância, pegando fogo e afundando no pântano. Tempo depois surge do charco uma criatura meio humana, meio vegetal: o Monstro do Pântano. Ainda com lembranças de sua vida humana, sua grande jornada era pra recuperar a humanidade perdida.

A Saga do Monstro do Pântano - Livro Um página 1

Depois de enfrentar vilões, monstros fantásticos e até aliens, a revista foi cancelada e só voltou em 1982 com o escritor Martin Pasko (Senhor Destino), para um segundo volume (A Saga do Monstro do Pântano). Escreveu até a edição #19, deixando o cargo para o então novato Alan Moore, que havia escrito alguns pequenos clássicos na Grã-Bretanha. Moore virou a história do personagem de cabeça pra baixo, lhe deu toda uma nova perspectiva, uma nova origem sem desrespeitar o passado. Foi o reboot sem ser reboot. Permitindo a entrada de novos leitores.

Esse encadernado da Panini reúne os dois primeiros arcos de sua fase com a série, trazendo ainda a quase inédita edição #20, geralmente fora das coletâneas. Li com bastante expectativa, afinal é a “famosa saga do Moore”, mas me surpreendi com a qualidade narrativa e gráfica. Talvez seja uma das melhores HQs que já pude ler. O primeiro arco, em particular, é apenas perfeito.

A história começa com o Monstro sendo perseguido e morto pela Segurança Nacional, transferindo seu corpo para um laboratório. O Dr. Jason Woodrue, o Homem Florônico, é tirado da cadeia para que disseque o Monstro e tente reconstruir a fórmula em que Alec trabalhava. Nesse capítulo, “A Lição de Anatomia”, Moore supera todas as expectavas criando uma narrativa em que explica as origens do personagem sem cair nos flashbacks da vida, ao mesmo tempo em que cria um novo contexto para a criatura.

A Saga do Monstro do Pântano - Livro Um página 4

Há uma sequência alucinante, bastante cinematográfica, com Woodrue em sua casa imaginando o corpo do Monstro revivendo e destruindo o laboratório. Segundo sua nova teoria, Alec Holland morreu durante a explosão e, ao cair no pântano, sua consciência foi absorvida pela vegetação, sofrendo mutações graças a substância em que trabalhava. Isso deu origem à uma criatura totalmente planta, mas que pensa ser Alec Holland.

E quando ele ressurge e descobre isto, seu mundo cai. “Todo esse tempo em busca de uma humanidade que nunca teve”. É muito incrível como isso foi explicado, utilizando um “verme” como exemplo, que faz algo semelhante. Quer dizer que o Monstro é algo totalmente novo, que sentia a necessidade de criar órgãos como pulmão, coração e cérebro para manter sua aparência ainda humana, mas que nunca precisou disso. Até mesmo respirar era desnecessário. Isso transforma até seu status quo.

Alan Moore conseguiu reestruturar toda a série, pra começar a criar suas próprias histórias para o Monstro. Nesse primeiro arco ainda mostra a volta dele aos pântanos, enraizando na Louisiana, querendo descanso. O Homem Florônico, entretanto, continua sua pesquisa com ele, conseguindo num certo ponto entrar em contato com o próprio Verde (energia das plantas).

A Saga do Monstro do Pântano - Livro Um página 3

Eu adoro personagens com alguma ligação ao “Verde”, tipo a Hera Venenosa, e aqui o velho debate sobre proteção ambiental e supremacia vegetal ganha uma roupagem diferente. E é sempre bom lembrar que foi criado há mais de 30 anos e continua atual, envelheceu mega bem, ao contrário de muitos arco de Supers por aí….

O segundo arco, focado num demônio que se alimenta de medo, não possui a mesma força do primeiro, mas continua muito bom. O modo de narrar e apresentar os personagens me lembrou Sandman, que só viria a surgir 5 anos mais tarde. Outro ponto interessante é que A Saga do Monstro do Pântano ocorre no Universo DC, então temos a presença de inimigos como Etrigan e até mesmo da Liga da Justiça. Foi uma das primeiras séries da editora com conteúdo mais adulto, abordagem diferente e “real”, sombrio, sendo a base para a criação da Vertigo em 1993, se desmembrando do UDC.

Em questões estéticas, a dupla Bisset e Totleben não podiam se dar melhor. Seus desenhos são bem fluídos, cheio de detalhes e, acima de tudo, bonitos. A construção das páginas merece destaque, com uma diagramação fora do comum, com uma geometria perfeita, cheio de quadros sobrepostos. Me lembra bastante o estilo do Keneth Rocafort (Capuz Vermelho) ou até mesmo do J. H. Williams III (Batwoman), com suas páginas ornamentadas. Ambos desenhistas contemporâneos que talvez tenham se inspirado na dupla.

A Saga do Monstro do Pântano - Livro Um página 2

São várias cenas de encher os olhos, mas destaco algumas. A primeira com Woodrue se conectando ao Verde, totalmente psicodélica. Temos também o momento em que o Monstro, “empantanado”, começa a criar tubérculos. Ou quando ele ergue as mãos, como se finalmente estivesse “livre”. Sem contar pequenos detalhes que fazem toda a diferença, como as células vegetais em algumas composições. A arte aqui é tão funcional e bonita, que deixa alguns trabalhos dessa mesma época tão “datados”…

Há muito mais o que se falar de “A Saga do Monstro do Pântano – Livro Um”, como a sequência dos sonhos, as metáforas de alguns diálogos, o psicológico da criatura, seu relacionamento com Abby… mas vou parar por aqui. Em resumo, é uma HQ que faz jus à fama que carrega. Me surpreendeu bastante. Apesar do segundo arco me impressionar menos, o primeiro está entre as coisas mais m@therfuc$er que já li. Recomendo pra todos. Fico agora na expectativa dos próximos encadernados.

O acabamento da Panini é em capa cartão e miolo em pisa brite, indo contra a maré das demais publicações (em papel LWC) e sendo xingada até às últimas por isso. Se ajuda, o papel passa um ar mais retrô e as cores não foram tão prejudicadas. No mais, a edição está bem caprichada com introdução do próprio Len Wein e do escritor de horror Ramsey Campbell, reprodução das capas originais e as clássicas mini-biografias, além de um índice.

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Estudante de Artes, consumidor compulsivo de HQs, amante da psicodelia, sonhos, nonsense, teorias da conspiração e colagens. Um mutante. Autor da Central dos Sonhos. + www.filfelix.com.br