[Especial] Spawn: Origem Infernal!

[Especial] Spawn: Origem Infernal!

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Arcos Principais: Questões (Questions).
Publicação Original/ Brasil: Spawn #1 ao #11 (Image, 1992)/ Spawn #1 ao #10 (Abril, 1996) e Spawn: Origens #1 e #2 (Pixel, 2007). Edição #10 inédita.
Roteiro/ Arte: Todd McFarlane, Alan Moore, Neil Gainam, Dave Sim, Frank Miller / Todd McFarlane.

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No comecinho dos anos 1990, diversos desenhistas estavam descontentes com o mercado editorial e o funcionamento de direitos autorais dos personagens que criavam nas grandes editoras. Traduzindo: quando algum desenhista/ roteirista criava um personagem em alguma série Marvel ou DC, o direito permanecia com as editoras, apesar do autor ganhar crédito. Isso funciona praticamente assim até hoje. Descontentes, esses desenhistas fundaram uma editora própria, onde cada autor teria total liberdade e detenção de suas criações. Surge em 1992 a Image Comics, que redefiniu e revolucionou a estética das HQs. Claro que a história é maior, mas esse é um resumão. Entre os fundadores, estavam os já badalados Todd McFarlane (que arrecadou milhões com Homem-Aranha: Tormento) e Rob Liefeld (que havia criado a X-Force e Deadpool).

Dentre a primeira leva de títulos da Image estavam as séries Spawn do McFarlane, Youngblood do Liefeld, Savage Dragon do Erik Larsen (Amazing Spider-Man) e WildCats do Jim Lee (Fabulosos X-Men), que foram um sucesso absoluto. A Image logo caiu no gosto popular, principalmente por sua arte exagerada. A “era Image” é conhecida até hoje como a época das mulheres com pernas de 2m, peitos gigantes, armas extravagantes, homens musculosos e armamento pesado, que também dominou a Marvel e DC. Algo que hoje se tornou vergonhoso. Quase todas essas séries foram canceladas tempos depois, com exceção de Spawn e Savage Dragon que são publicadas até hoje! Spawn já ultrapassou o número #260, com fases escritas e desenhadas por autores diferentes, mas ainda com McFarlane na equipe criativa. A Image se tornou a casa de excelentes séries mais tarde, como Astro City, Invencível e Walking Dead.

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Spawn e McFarlene logo se tornaram um império: a série ganhou um filme não tão bem sucedido e uma série animada ganhadora do EMMY, ambos em 1997. Ele praticamente não desenhou/ escreveu pra nenhuma outra editora desde então, criando e focando sua atenção na sensacional empresa de action figures McFarlene Toys, reconhecida pelo seu alto nível de detalhes. A série foi publicada no Brasil pela Abril e em seguida pela Pixel entre 1997 e 2008, alcançando a incrível marca de 178 edições! Infelizmente foi cancelada e apenas as 10 primeiras edições e alguns arcos soltos foram relançados em encadernados. Spawn teve ótimas e péssimas fases durante todos esses anos, começamos com este review especial a comentar as 11 primeiras edições: a origem de Spawn e as histórias polêmicas (judicialmente) escritas por Neil Gaiman e Dave Sim. Contém pequenos spoilers.

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QUESTÕES

Todd McFarlane foi um fenômeno no começo dos anos 1990, rendendo milhões pra Marvel com sua fase no Homem-Aranha e se tornando o artista mais bem pago na época. Sua saída do mainstream e posterior criação da Image chocou o universo dos quadrinhos. Seu nome ajudou o primeiro arco de Spawn (Questões) a ser um sucesso: a primeira edição ultrapassou a marca de 1.5 milhão de cópias vendidas. As boas vendas acompanharam a série durante quase toda a década de 1990, decaindo gradativamente nos anos 2000 e hoje raramente entrando no Top 100, apesar de continuar firme e forte. McFarlane possui um traçado bastante característico, que lhe rendeu toda sua fama. No roteiro, porém, há controvérsias…

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“Questões” é um bom arco, acima da média. Em 4 edições, McFarlane nos conta a origem de Spawn, mas deixando diversos mistérios no ar: Al Simmons é um policial que salvara a vida do Presidente dos EUA uma vez, se tornando uma figura conhecida. Porém levava uma vida dupla, acabando por ser assassinado. Desesperado, ele faz um pacto com um Demônio para poder ressuscitar e reencontrar sua esposa, Wanda. O pacto é realizado, porém Al acorda num beco, cinco anos depois de sua morte, com poucas lembranças e usando uma estranha armadura como pagamento. Ele agora se tornou um “Spawn”. Uma espécie de soldado do inferno.

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Durante o arco vamos conhecendo um pouco mais de sua origem, mas ainda com diversos pontos de interrogação: quem foi seu assassino, que pacto fez, quais as regras, o que ele fez para ir ao inferno? Um ponto bem interessante e bem pensado por McFarlane foi o uso de três repórteres, que aparecem esporadicamente nas edições. Cada um comenta uma notícia ao seu modo, seja objetiva, com tom de fofoca ou reaça, dando um maior dinamismo à narrativa.

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Também temos uma dupla de policiais como personagens coadjuvantes: o ranzinza e brutamontes Sam e o tímido e inteligente Twitch. Logo de início, McFarlane já consegue criar uma identidade visual para os dois, que aparecem entre as sombras. Eles estão investigando as mortes de diversos chefões do crime organizado que tiveram seu coração arrancado a sangue frio. Este “assassino” é o demônio Violador, que em sua forma humana é um palhaço baixinho, gordo e debochado. É o primeiro e o mais clássico inimigo de Spawn. Perto do fim deste arco há um confronto muito bom entre os dois.

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Outro personagem que aparece rapidamente, mas que se tornou parte fundamental na mitologia de Spawn, é o demônio Malebolgia: simplesmente o chefão tanto do Violador quanto de Spawn. A história de Questões é boa e consegue prender o leitor. Há ação, violência e sangue na medida certa. Mas a arte continua o ponto alto: McFarlane é espalhafatoso, dinâmico e ágil. Cada página apresenta diagramações interessantes e fora do comum. O próprio Spawn e sua capa aerodinâmica já colaboram para composições sensacionais. E o que é melhor: esse começo passou praticamente imune à “Imagezação” que tomou conta da década de 1990.

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JUSTIÇA e RETRIBUIÇÃO

As três histórias seguintes (Justiça e o arco em duas partes Retribuição) mostram eventos isolados. Em Justiça temos Billy Kincaid, um homem condenado por assassinar e mutilar uma criança e solto após 6 anos de prisão, devido seu bom comportamento. Mas Kincaid havia matado muito mais e acaba voltando ao hábito, sequestrando crianças com a ajuda de uma van/ sorveteira. McFarlane trabalha com a figura quase mitológica do horror norte-americano: os vendedores de sorvete/ balões/ brinquedos que sequestram crianças. Sam e Twitch fazem vista grossa com sua saída da prisão ao mesmo tempo que investigam novos desaparecimentos. Mas é Spawn, que havia tido a missão de matar Kincaid quando estava vivo (já que, além de policial, também era assassino de aluguel), que acaba terminando o serviço.

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Uma história curta e muito boa, mantendo o nível do primeiro arco. O final é chocante e sangrento, até mesmo algumas cenas de tortura são impressionantes pros tempos atuais. Mas o pequeno arco que o sucede já começa a demonstrar a “Imagezação” e a série começa a dar uns tropeços. Em Retribuição, um chefão do crime, com medo dos assassinatos, contrata Chacina para dar cabo do responsável pelas mortes. Chacina é um ciborgue extremamente musculoso, invulnerável, rabugento, convencido e mega-armado. A cara dos personagens que brotaram nos anos 1990.

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Ele persegue e derruba Spawn, que ainda não tem total controle sobre seus poderes. Irado, Al invade uma base militar, rouba diversas armas e parte para sua revanche. Isso mesmo, um soldado do inferno larga sua capa e vai armado até os dentes pra cima do Chacina. A briga é muito boa esteticamente, mas é bizarro vê-lo com armado. Ainda mais com umas pistolas impossíveis de se empunhar no mundo real, algo que o Liefeld adora desenhar. São nessas histórias que fica evidente o “Universo Image”, pois há menção aos Youngblood, a superequipe da editora.

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NO PARAÍSO por Alan Moore

Todd McFarlane convida um time de peso para escrever as 4 histórias seguintes (edições #8 ao #11): os incríveis Alan Moore (V de Vingança), Neil Gaiman (Sandman), Frank Miller (Elektra Assassina) e o não tão conhecido Dave Sim, criador da premiada série autoral Cerebus. Moore foi o primeiro, escrevendo No Paraíso, uma história sensacional mostrando o destino de Billy Kincaid: assassinado por Spawn, ele cai no inferno e precisa “sobreviver” ao lado de outras pessoas. Ele expande a mitologia de Spawn: o inferno é composto por 10 esferas/ andares, cada qual com demônios e pecadores distintos.

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Claramente uma referência a divisão do inferno feita por Dante Alighieri em sua Divina Comédia, que é composta por 9 círculos. A alma dos pecadores “brotam” no Inferno como frutas e são resgatados por responsáveis de cada Esfera. Kincaid é capturado por Vingador, um dos Cinco Irmãos Flebíacos (como o Violador), levando-o para o Malebolge, o 8º andar comandado por Malebolgia. O assassino é dominado por um “Spawn”, que é um uniforme parasita neural. Se transformando num Spawn e fazendo parte do exército de Malebolgia. Uma história que expande o universo em muitos pontos e em tão pouco tempo, excelente. Dois fatos curiosos: uma das mulheres no Inferno veste um maiô, quer dizer… ela acordou nua e colocou uma tanga pra se vestir. Moore escreveu em 1995 a mediana mini Spawn – Feudo de Sangue.

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ÂNGELA por Neil Gaiman

A história seguinte é escrita pelo Gaiman e traz toda a atmosfera que já conhecemos de seu trabalho: no passado, um Spawn Medieval é caçado por Ângela, uma caçadora de Spawns. Temos longas descrições e o clima Shakesperiano que sempre surgia em Sandman. 800 anos depois, Ângela ressurge para caçar o Spawn Al Simmons. A mitologia também é expandida, como o contador de energia e os mendigos amigos de Al, que também fizeram pacto. Os anjos são mulheres: Ângela, Rafaela, Gabriela. A história não chega a ser sensacional, mas ficou famosa: Gaiman é o co-criador tanto da caçadora, quanto do Spawn Medieval e Cogliostro, recebendo royalties durante um tempo. Mas McFarlane caloteou e parou de pagar os direitos, dizendo ter total controle sobre as personagens, que Gaiman havia sido apenas contratado (fazendo o que a Image exatamente criticava). Isso se tornou uma briga judicial por anos, com a edição #9 não sendo publicada em coletâneas até 2009, quando Gaiman ganha a causa e 100% dos direitos de Ângela. E ele fez o que? Vendeu para a Marvel, que a transformou numa irmã perdida do Thor em 2013. Vá entender!

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CROSSOVER por Dave Sim

A edição #10 também é marcada por uma polêmica judicial: escrita por Dave Sim, ele trouxe seu próprio personagem, o porco antropomórfico Cerebus, para interagir com Spawn numa espécie de sonho causado pelo toque no bastão de Ângela. A história é uma grande crítica ao mainstream dos quadrinhos: a dupla passa por um corredor onde, de um lado, estão diversos super-heróis presos pedindo por ajuda; do outro lado estão pessoas encapuzadas (que seriam seus criadores) torturados por uma estátua da “Justiça”, com cabeça de demônio e vestida com notas de dólares, mostrando o quanto os autores foram vendidos ao sistema. Nada subjetivo, o próprio Cerebus é bastante didático. O Superman, entre sombras, surge como “aquele que deu origem e inspirou a todos”. A história também não chega a ser sensacional, principalmente por entregar tudo muito bem mastigado, mas é boa e ficou famosa por outra polêmica: ela foi lançada originalmente em 1993 e não foi relançada até 2012, quando entrou pela primeira vez numa coletânea da série. Até mesmo no Brasil, a editora Abril pulou esta edição por questões autorais.

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LAR por Frank Miller

Fechando esse primeiro ano de Spawn, que por si só já foi repleto de polêmicas, excelentes vendas e a crítica especializada ainda decidindo se era de qualidade ou não, temos Frank Miller escrevendo a história Lar. O autor de Sin City mostra uma briga entre as gangues Cricas e Nerds pelo beco onde Spawn e seus colegas mendigos moram. Al cria toda uma situação psicológica para aniquilar ambas e proclamar o direito ao local. A história não traz nada de surpreendente, como Moore trouxe, e ainda caminha pela esteira da Imagezação que comentei no arco Retribuição: muito sangue, mega armaduras, mega armas, super lazers. Num momento até pensei ter visto o Cable dos X-Men numa cena, de tão semelhantes que esses personagens são. A personalidade de Al Simmons como Spawn ainda não é totalmente aprofundada nessas primeiras 11 edições, caminhando entre o humano bom que não quer matar e precisa encontrar um meio de se vingar de Malebolgia por ter lhe enganado; e o homem mau, travestido de Spawn que quer vingança e não poupará quem entrar no seu caminho. De toda forma, ainda é um Super-Herói. Sem contar o relacionamento que começa a construir com sua esposa, que não sabe de sua condição e está casada com seu melhor amigo.

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Com um primeiro arco bastante interessante e uma mitologia rica, que tomou forma com a história sensacional de Alan Moore, esse primeiro ano ainda tem fôlego com a inclusão de Ângela do Neil Gaiman e a crítica de Dave Sim. Os demônios no traço de McFarlane são incríveis! Frank Miller e o arco com o ciborgue Chacina são os pontos mais baixos, mas são os que ilustram o que a década de 1990 se tornaria. O próximo especial cobrirá o segundo ano de Spawn, que teve a participação especial de Grant Morrison e Greg Capullo na equipe criativa. Como curiosidade, Todd McFarlane saiu da Marvel sem muitas papas na língua, inclusive criticando abertamente quem ele considerava “vendido” ao sistema, como Peter David (de X-Factor Investigações) que na época trabalhava na série do Incrível Hulk (que inclusive teve arte do próprio McFarlane antes) e John Byrne, que fazia sucesso em sua fase com o Superman no final dos anos 1980. Esses comentários aparecem numa entrevista do autor, presente nas primeiras edições de Spawn da Abril. McFarlane, Spawn e Imagem são sinônimos de polêmica!

nota 9,0 ;

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Estudante de Artes, consumidor compulsivo de HQs, amante da psicodelia, sonhos, nonsense, teorias da conspiração e colagens. Um mutante. Autor da Central dos Sonhos. + www.filfelix.com.br