[Especial] Coleção Moebius Vol. 2: Absoluten Calfeutrail & Outras Histórias!

[Especial] Coleção Moebius Vol. 2: Absoluten Calfeutrail & Outras Histórias!

Arcos Principais: Diversas histórias curtas.
Publicação Original/ Brasil: Histórias publicadas por volta de 1977 na Métal Hurlant (Les Humanoides Associés, 1977) / Coleção Moebius Vol. 2 – Absoluten Calfeutrail & Outras Histórias (Nemo, 2011).
Roteiro/ Arte: Jean Giraud “Moebius”.

Ano passado comecei a ler a Coleção Moebius, série que a editora Nemo começou a publicar em 2011, lançando 8 edições de materiais inéditos e republicações do grande Moebius, um dos fundadores da Métal Hurlant (a Heavy Metal original). No post do Vol. 1: Arzach eu comentei um pouco sobre isso. Mas voltando para este volume 2, que contém diversas histórias curtas ambientadas em planetas misteriosos, versando entre a fantasia e a ficção científica, publicadas originalmente por volta de 1977. Além da historia que da nome ao volume, se destaca “O Pau Doido“, por ser a maior de todas. Review especial sem spoilers!

ABSOLUTEN CALFEUTRAIL

A história que abre e também dá nome ao volume segue uma narrativa ao estilo Alice no País das Maravilhas. Nela, um homem correndo (ou fugindo) acaba caindo num buraco e o que vemos a seguir é o que acontece durante essa queda, semelhante a quando Alice cai na toca do Coelho. Essa transição é bastante utilizada em histórias de fantasia, conhecida como “portal mágico“, que diferencia o mundo real do imaginário. Vemos isso em Nárnia (o guarda-roupa), Harry Potter (o Beco Diagonal), na própria Alice, entre tantos outros. Aqui, Moebius utiliza dessa ferramenta para entrarmos não somente num novo universo, que veremos bastante durante todo o volume, mas também de mergulharmos na mente desse protagonista. A introdução é muito boa em reforça esses pontos, que cheguei a comentar no review anterior, de como o trabalho dele tem uma ligação com os sonhos e com a escrita automática, um fluxo de consciência. Nessa primeira história, durante essa queda quase infinita, o protagonista observa e é observado por diversas figuras, até chegar ao seu fim. Como sempre, os desenhos são ótimos, conseguindo criar transições excelentes, mesmo sem possuir diálogos.

CONTO DE NATAL

A partir daqui, as histórias ficam mais complicadas. Ou confusas. Uma característica bem forte em seu trabalho. Enquanto em Arzach eu não peguei muita coisa, porém curti muito os desenhos por conta das cores, nesse segundo volume tive um pouco de dificuldade. Além de ser todo em preto e branco, há muitas passagens que ficamos com cara de WTF?. Conto de Natal traz uma reviravolta de papeis, quando dois caçadores estão atrás de algumas aves bizarras, que seriam o “peru” deste planeta. Mas essas aves/ anjos bolam uma armadilha e viram o jogo. É bastante nonsense, porém traz de volta a questão das portas e portais, formando um trabalho interessante de semiótica.

HÁ UM PRÍNCIPE CHARMOSO EM PHENIXON

Aqui eu senti um toque de ironia, principalmente às mulheres. Nela, um homem sofre nas mãos de uma esposa que sempre o põe pra baixo, dizendo que a mãe tinha razão, que não deveria ter se casado. Ambos estão pousando num planeta, a fim de buscar peles de TOC TOC. Também traz a questão do nonsense, do contato com o desconhecido, mas uma reviravolta que reforça o tom de ironia.

ROCK CITY

Rock City foi uma das minhas preferidas, em parte porque lembra a incrível Rogan Gosh. Também é muda, onde um homem se rebela contra o sistema, contra a mídia e tudo que nos impõe um estilo de vida que não queremos. A sacada é genial, utilizando do looping e da ideia de sonho, até mesmo de uma Matrix ou 1984, de que estamos sendo vigiados, de uma maneira muito interessante. As interpretações são diversas, dependendo do leitor. E o melhor é ter contato com esse material em tempos de Black Mirror, ver que a série não inventou a roda. É um exemplo de que Moebius consegue entregar um conceito sem ser extremamente confuso (algo que, infelizmente, acho em algumas histórias).

BARBA RUIVA E O CÉREBRO PIRATA e O ARTEFATO

As duas histórias seguintes não foram bem as minhas preferidas. Barba Ruiva e o Cérebro Pirata traz uma tripulante conversando com um robozinho defeituoso, acabando sabotado por ele. Enquanto O Artefato (algo que o Moebius adora, presente em Arzach), dois astronautas descem sobre um estranho planeta, descobrindo um misterioso castelo de areia. Em ambas há a brincadeira com o desconhecido e de que nem tudo é o que parece. Mas por serem bem curtinhas, o impacto não chega a ser tão grande ao terminar.

APROXIMAÇÃO DE CENTAURI

Essa é outra história interessantíssima, na mesma pegada de Rock City. Num ambiente onde todos estão ligados à máquinas, uma delas dá tilt e leva o usuário a outro mundo. A sacada, mais uma vez, é a de o que é real. Essa nova realidade é a verdadeira realidade? Eles estão presos? Uma simulação? Ou só paranoia? É quando o roteiro cai mais na ficção científica do que na fantasia, propriamente dita. E os desenhos merecem destaque nessa, também. A parte das máquinas tem um traçado mais simples, enquanto a outra realidade é mais pesada, repleta de hachuras. Em seguida tem uma história curtinha, Variação nº 4070 Sobre “o” Tema, onde Moebius cria mais uma versão, literalmente, de um lugar destruído pela bomba atômica e, mesmo assim, a sociedade sobrevive com guerras, violência e disputas.

O PAU DOIDO

A última história também é a maior e, digamos, mais completa. E também a mais nonsense de todas. Tudo é muito WTF?, um atrás do outro, começando a fazer sentido (um pouco) da metade pro fim. Existe um universo, vamos começar assim, onde as sociedades se interagem e avançam como um sistema de planta, observando as estações, floradas e períodos férteis (como a primavera). Mas literalmente. Alguns homens são selecionados pra fecundarem uma mulher, que é enorme e expele os fetos. E um desses homens não saiu de seu período fértil, ficando com o pênis sempre ereto e desproporcional, o que eles chamam de Pau Doido, perseguido pela polícia local. Ao mesmo tempo em que, num outro planeta, uma mulher dos seios enormes, inimiga dessa outra civilização, quer a todo custo por as mãos no Pau Doido. Tudo é muito bizarro e, apesar de fazer algum sentido com o que expliquei, só fui pegar isso perto do fim e, SE, realmente for essa a ideia da história. Tudo é meio nonsense, mas não da maneira que eu, particularmente, gosto. O conceito de flores eu amei, há também algumas entre-cenas ótimas, criando uma narrativa de renascimento em paralelo muito boa. Os desenhos, sempre excelentes.

Este segundo volume da coleção Moebius traz histórias menos e mais confusas, menos e mais interessantes, dependendo de leitor pra leitor. Como fã de Matrix, adorei as duas histórias que envolvem (ou sugerem) a ideia de simulação, que foi Rock City e Aproximação de Centauri, que trazem uma narrativa muito atual. Em contrapartida, boa parte das outras histórias parecem não fazer muito sentido ou chegar em algum lugar. É bastante visível que Moebius sabia o que estava fazendo, por mais que fosse através da escrita automática. Há os portais mágicos, o looping, a perda da noção de realidade, inversão de papéis, todos temas presentes em seu trabalho. Porém, tudo junto e misturado, você termina com aquela sensação de “será que peguei tudo, mesmo?“. O visual, principalmente os chapéus e vestimentas, continuam sensacionais. Se você for do tipo de leitor que não gosta de histórias abertas ou nonsense demais, talvez não irá curtir tanto essa edição. Se tiver a mente mais aberta, tomou um docinho ou curte criar mil interpretações, esse já é um volume mais indicado pra você. Eu fiquei entre os dois.

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Estudante de Artes, consumidor compulsivo de HQs, amante da psicodelia, sonhos, nonsense, teorias da conspiração e colagens. Um mutante. Autor da Central dos Sonhos. + www.filfelix.com.br