[Especial] Ms. Marvel Vol. 1: Nada Normal!

[Especial] Ms. Marvel Vol. 1: Nada Normal!

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Arcos Principais: Nada Normal (No Normal).
Publicação Original/ Brasil: Ms. Marvel #1-5 (Marvel, 2014)/ Ms. Marvel: Nada Normal (Panini, 2016).
Roteiro/ Arte: G. Willow Wilson / Adrian Alphona.

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Nos últimos anos a Marvel vem reformulando seu Universo através de diversas mega-sagas que acabam zerando a numeração de suas séries, no intuito de chamar a atenção de novos leitores. Uma ótima estratégia a curto prazo, mas que vem irritando muitos dos fãs da Casa das Ideias. Muitos títulos, por exemplo, não ultrapassam as 12 edições. A Marvel também está de olho na diversidade, algo que sempre ficou em segundo, terceiro plano nos quadrinhos do mainstream: a maior participação e protagonização de personagens negros, mulheres e LGBTs. Assim, em 2014, temos o lançamento da fase “All-New Marvel NOW!” (Totalmente Nova Marvel), que zerou muitos títulos e ganhou séries novas e polêmicas, como o quarto volume de Thor, protagonizado por uma mulher. Outro título interessante é a nova Ms. Marvel, onde uma jovem de origem paquistanesa, fã da Carol Danvers (antiga Ms. Marvel e atual Capitã Marvel), descobre ser inumana e passa a utilizar o codinome de sua diva. Nesse review comento o primeiro arco, No Normal (Nada Normal), que foi publicado pela Panini em encadernado. Sem muitos spoilers.

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A primeira edição já estabelece bem o clima que a história vai percorrer: bem humorada, trazendo questões raciais e religiosas, amores juvenis e os problemas típicos de adolescentes. Escrita por G. Willow Wilson (Vixen: Return of the Lion), que apesar de ser norte-americana, também é muçulmana e já viveu um tempo no Egito (de onde tirou inspiração para sua graphic novel Cairo, da Vertigo). O que é bom, pois dá mais prioridade em falar e tratar de determinados assuntos, dos quais fez muito bem. O início não é bem original, mas funciona: Kamala Khan é uma adolescente com pais rígidos e fervorosos, que não tem muitos amigos na escola e é impedida de ir à uma festa noturna. Contrariando os pais, sai escondida mesma assim (pulando a janela, como de costume) e vai pra tal festa, descobrindo não ser bem o que esperava. É nesse momento que uma imensa névoa cobre a cidade: é o evento Inumanidade, quando Raio Negro explodiu uma bomba de névoa terrígena sobre o mundo, despertando os genes inumanos de pessoas comuns.

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Kamala Khan, então, é afetada pela Terrigênese inumana, delira e literalmente renasce como uma nuhumana, com o poder de transmorfar. Essa cena do delírio é muito boa e combina com a pegada de trazer uma nova Ms. Marvel, sem desrespeitar o manto da Carol Danvers, funcionando como uma homenagem. Os eventos que seguem os recém adquiridos poderes também vão na cartilha dos super-heróis: salva um civil, problemas com a identidade secreta, com o uniforme e aprendendo a lidar com as novas habilidades. Apesar da personagem ter suas características especiais, trata-se de um arco de “origem” bastante tradicional, até.

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Mesmo assim, o roteiro de Wilson tem seus destaques, quebrando diversos estereótipos (apesar de manter outros). O primeiro, que acho o mais importante, é fugir dos mega-vilões e coisas desastrosas que acompanham as HQs de heróis. Os dramas são outros, de natureza social, emocional e afins. Claro, ainda há muita pancadaria e diversos clichês de histórias adolescentes, mas os pontos que a diferenciam se destacam mais. A religião, por exemplo, é algo presente na família de Khan e a autora aproveita para fazer algumas críticas ao islamismo, em particular o papel da mulher. A jovem não se sente confortável nas reuniões (onde as mulheres sentem um nível abaixo dos homens) ou no tradicionalismo dos pais, mas não chega a ser desrespeitoso, já que ela continua muçulmana. Não é sobre ir contra, mas de questionar alguns dos princípios.

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Um personagem carismático é Bruno, um jovem que estuda na mesma escola da Khamala, trabalha numa loja de conveniência e tem uma queda por ela. Além de simpático, ele funciona também para quebrar o estereótipo de personagens que se apaixonam pelo herói (geralmente mulheres), além de ajudá-la a entender a natureza de seus poderes. Todos são muito bem desenhados por Adrian Alphona, que já tinha experiência com adolescentes em outra série jovem (Os Fugitivos), que dá uma leveza as cenas cotidianas e muito dinamismo nas de ação. Ian Herring (Seda) assina as cores, que tornam mais homogêneo os capítulos, com destaque para os tons de pele. Tudo muito colorido, com alguns momentos mais cartoon. Um outro ponto interessante, na arte, é a feição da família da Khan, com os traços típicos de sua etnia, evitando a “branqueamento” que geralmente vemos por aí.

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Nada Normal é uma primeiro arco muito divertido e tranquilo, cujo “vilão” da vez é uma turma de adolescentes inventores e, apesar de seguir a cartilha das “origens” dos super-heróis, traz pontos muito interessantes que enriquecem a narrativa, falando sobre religião, o papel da mulher, diferenças sociais e preconceito. Há pequenas ironias até mesmo com o protagonismo feminino nos quadrinhos, sobre como podem combater o crime de maiô ou de salto alto, contrastando com o uniforme fechado da Kamala. Somando aos personagens cativantes, é fácil o leitor se sentir identificado, resultando num ótimo início de série. Ms. Marvel durou 19 edições (2014-2015), ganhando um novo volume logo em seguida e sendo publicada atualmente.

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Estudante de Artes, consumidor compulsivo de HQs, amante da psicodelia, sonhos, nonsense, teorias da conspiração e colagens. Um mutante. Autor da Central dos Sonhos. + www.filfelix.com.br