[Review] Memória de Elefante !

[Review] Memória de Elefante !

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Nome Original: Memória de Elefante

Editora/Ano:Cia. das Letras, 2010
Preço/ Páginas: R$39,00/ 232 páginas
Gênero:Biografia
Roteiro / Arte: Caeto
Sinopse: À primeira vista, a carreira artística de Caeto poderia insinuar uma caminhada promissora. Porém, uma a um, os projetos caem por terra antes que possam alçar voos mais altos: suas HQs não chegam ao grande público, sua música não é comercial o suficiente para  fazer sucesso e seus quadros são vendidos a conta-gotas. Logo no início da vida adulta, o artista é obrigado a lidar com a crônica falta de dinheiro e as perspectivas profissionais limitadas, além dos fracassos na vida amorosa e as armadilhas da depressão e do alcoolismo. Seu pai é um livreiro semifalido, homossexual assumido e portador do vírus HIV. Já sua mãe, após o fim tumultuado e traumático do casamento, muda-se para o interior do estado. Quando seu pai decide fechar a livraria, tudo o que deixa para o filho recém-saído da adolescência são três caixas de livros e um relógio cuco.
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Memória de Elefante narra alguns acontecimentos da vida de Caeto, desde sua mudança à São Paulo, passando pela casa de vários amigos e tentando sobreviver de sua arte, aos conflitos com sua família e o processo criativo deste título. Trata-se de mais um quadrinho biográfico da Cia. Das Letras, que já havia lançado Jimmy Corrigan, de Chris Ware; e Bordados, de Marjane Satrapi, autora de Persépolis; entre outros. Apesar de alguns “deslizes”, a obra é, sem dúvidas, ótima. Os desenhos de Caeto são simples, mas cativantes, algo comum em obras do gênero, como em Retalhos, também da Cia. Das Letras. Mesmo sendo retratado com as mesmas roupas, podemos ver a evolução de alguns personagens através dos anos, como engordar ou emagrecer. 

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Recomendo Memória de Elefante, principalmente, para os aspirantes à quadrinista que residam em São Paulo. O autor retrata fielmente alguns locais da cidade, sempre citando nomes de ruas e bares, tornando à história mais “tangível”. E para quem costuma freqüentar lugares como a Rua Augusta, se identificará melhor. Para quem gosta de desenhar ou roteirizar, as dificuldades passadas por Caeto em começo de carreira, com lançamentos de fanzines e venda de quadros na rua, cativam bastante.
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Porém, confesso que foi difícil analisar Memória e mais ainda dar uma nota. Tomei conhecimento da obra através de minha amiga, a Andréia Alves, que na época estava lendo e curtindo a história. Dei uma folheada e me interessei bastante pelos temas tratados pelo autor. Desde então, vinha criando certa expectativa em torno do livro, que se mostrou bem diferente do que imaginei, ao terminar de ler.

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Há diversas qualidades na história que poderiam ser comentadas por aqui, mas ficaria enfadonho. Entre os pontos principais, creio que as críticas e os comentários ácidos do autor contra a sociedade e a si mesmo é um dos mais lembrados por quem leu. Caeto não tem papas na língua e é politicamente incorreto, algo raro hoje em dia, onde todos prezam pela moral e bons costumes (?). Ele não tem medo de expor seus sentimentos e sua opinião com determinados assuntos, podendo não agradar algumas pessoas. E isso é bom.
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Não me incomodo quando Caeto, em personagem, diz homossexualismo e não homossexualidade, que seria o correto; ou quando utiliza alguns estereótipos já batidos, como relacionar AIDS à gays e bagunça à alunos de escola pública. Mesmo sendo temas já bem gastos, trata-se da realidade e do que passa na mente da população em geral, o que é bem contextualizado na história.
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Podemos dividir o livro em duas partes distintas: a primeira, de Caeto; e a segunda de Zeca, seu pai. Originalmente, o autor pretendia lançar um livro autobiográfico e, ao final, seu pai contaria a própria história, em forma de prosa. Devido às circunstâncias, o desenrolar da história toma outro rumo mas, apesar de realizado de forma diferente, a ideia se manteve.
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Livreiro e dono de um sebo, Zeca ficou casado com a mãe de Caeto durante 20 anos, mesmo tendo diversos casos extra conjugais, com homens e mulheres. Durante um período, teve um caso com seu colega de trabalho, Márcio. O caso foi se estendendo e virou um relacionamento e Zeca acaba se separando da esposa. Tempos depois, seu pai larga o marido, a livraria e seus flhos e vai morar em Bauru, onde “cuidará da própria vida”, como diz. Desde o início, é percebível que o autor guarda certa mágoa do pai, sempre o retratando de forma crítica. Em parte por ter abandonado a família, deixando o filho com alguns livros e um relógio cuco, como ele costuma dizer, ou lembrando das brigas que tinham e de como ele os tratavam. Porém, por outro lado, Caeto também o retrata como sendo forte e decidido, qualidades que ele preza e que não sente em sua mãe.

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Para completar, Zeca, antes de partir, informa ao filho que contraiu AIDS. Mesmo já duvidando, a notícia surpreende Caeto. Aos poucos a doença o consome, deixando-o em estado grave, necessitando da ajuda dos familiares. Mesmo com todos os impedimentos, Caeto mantém certo contato com o pai. Todo esse relacionamento serve como pano de fundo para a segunda parte do livro, quando Caeto precisa ir para Bauru tentar cuidar e orienta-lo. É nesse momento que o vácuo entre os dois diminui, porém permanece.
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O próprio Caeto, enquanto personagem principal, se destaca, possuindo grandes e expressivos estados emocionais, como amor, raiva e os tantos estados alcoólicos pelo qual passou. As mudanças, tanto interna quanto externa, são muito bem retratadas. Mas o mesmo não se pode dizer dos outros. Mesmo seu pai, enquanto personagem coadjuvante, não possui muita expressividade. Mesmo com a evolução de Zeca durante a história, ele permanece “distante”. As outras pessoas que vão surgindo possuem ações um tanto forçadas, salvo alguns personagens. O autor utiliza bastante de metáforas, mas se torna cansativo, principalmente por serem metáforas “explicitas”. Muitos momentos são descritos e também ilustrados, sendo redundantes. Como dizer “mil idéias martelam minha cabeça” num desenho de marteladas numa cabeça. É um aspecto comum durante toda a história, também utilizado nos personagens, como em momentos em que são descritos alguns de seus amigos, citando frases dos mesmos, onde tem um desenho com balões das mesmas frases. Se tornam forçados, como se tudo fosse ensaiado.
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Memória de Elefante é uma ótima leitura e esses problemas com as metáforas passam despercebidos em meio às qualidades. A excelente mensagem da úiltima página é marcante, finalizando com chave de ouro o título. Mais uma obra nacional que se destaca dentre tantos lançamentos, provando que o cotidiano de um cidadão comum pode dar muito pano pra manga.
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O acabamento é bom, com capa cartão, formato grande, e folhas grossas. Como extras, temos apenas um descrição rápida do autor, sua banda e alguns de seus trabalhos.
nota 8,5 h
 
 
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Estudante de Artes, consumidor compulsivo de HQs, amante da psicodelia, sonhos, nonsense, teorias da conspiração e colagens. Um mutante. Autor da Central dos Sonhos. + www.filfelix.com.br