Em março de 2021 houve um desafio bem legal lá no EntreContos: escrever um microconto de até 300 caracteres (incluindo espaços) para cada uma de 5 categorias diferentes, cada qual oferecendo até quatro estímulos para escolher.
Foi um desafio e tanto! Participei com o pseudônimo “Kalunga” e escrevi 5 microcontos a partir da figura do “papel“. E tive a grata surpresa de ficar em 6º lugar! Então decidi criar um desenho para cada um dos 5, algo simples, usando as cores primárias, além do preto e do branco.
Os desenhos (com os microcontos neles) foram postados originalmente no meu Instagram (@Central.dos.Sonhos), com alguns comentários sobre o processo. Aproveitem para acessar e seguir o perfil! Os microcontos em seu formato original estão disponíveis na página do EntreContos, com os comentários dos demais participantes do desafio.
O EntreContos é um site que propõe e elabora desafios literários e que venho participando há mais de 5 anos. Foi e continua sendo minha escola na escrita. Os desafios são puxados, mas recomendo a todos a leitura e participação!
Abaixo estão os desenhos e a transcrição dos microcontos. É possível ler o regulamento do desafio aqui.
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Despedida
O clichê estava lá: entre a praça, os pombos e a solidão. As mãos suando, molhando o pequeno pedaço de papel que segurava, borrando as declarações que havia escrito.
Não tinha mais importância, mesmo. Nada mais tinha.
O som do tiro veio como a rejeição, seco. Espantando as aves ao redor.
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Singular
Sempre enxerguei o mundo numa bolha de sabão, embrulhado em celofane colorido e reluzente. Muito além do aparente. Diferente, como eu.
Mas frágil. Um toque e a bolha se desmancha no ar, vulnerável aos olhares que julgam por um pensamento, uma orientação.
Ou uma mudança de cromossomos, como eu.
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Origami
Dobre o papel ao meio.
Filha, mãe, esposa, avó.
Cansada e pressionada sob as mãos sociais.
Embutir a ponta para dentro do vinco.
Sexo frágil, os dedos diziam.
Desdobrou-se em tantas, o corpo marcado não deixava mentir.
E mesmo assim.
Abra as asas.
Finalizou a dobradura, largou os papéis e voou.
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Ligação
Um abismo, era o que havia entre meu pai e eu. Coberto como a noite, ocultando preconceitos e abandono. Nossa conexão não passava de uma tira áspera de papel crepom. E cada lágrima que derramava sobre essa ponte manchava-me até a alma de um colorido intenso, que só ele não conseguia enxergar.
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Reencontro
Faria um almoço com o que tinha em casa: uma cebola, alho, pegaria um molho e um pacote de macarrão da dispensa. Sem receita, simples. O mundo desmoronava ao seu redor e não podia esperar mais. Necessitava daquele perdão, aceitar os erros do passado.
E na primeira garfada, perdoou-se.

Fil Felix é autor, ilustrador e psicanalista. A Central dos Sonhos é seu universo particular, por onde aborda questões como memórias, desejos e infância. Fã de HQs, escreve seus comentários sobre quadrinhos desde 2011, totalizando mais de 600 reviews. Já escreveu sobre arte para diversos blogs como Os Imaginários e a coluna Asas da editora Caligo. Ilustrou os livros infantis Zumi Barreshti (2021, Palco das Letras) e Meu Avô Que Me Ensinou (Ases da Literatura), entre outras publicações.