[Especial] Freud, o Onírico e a Semiótica no Filme "A Cela"!

[Especial] Freud, o Onírico e a Semiótica no Filme “A Cela”!

No filme A Cela (The Celll; 2000; Direção de Tarsem Singh), Catherine Deane (Jennifer Lopez) é uma psicóloga que realiza um tratamento experimental num paciente em coma, através de uma máquina que permite transferir sua consciência para a do paciente, podendo entrar em contato com seu inconsciente e, assim, tratar doenças como a esquizofrenia. É solicitada para auxiliar numa investigação policial, entrando na mente do serial killer Carl Rudolph Stargher (Vincent D’Onofrio), encontrado pelo FBI em coma, impossível de se descobrir o paradeiro de sua última vítima, sabendo apenas que está numa cela de vidro que aos poucos é preenchida automaticamente por água, torturando e, caso não seja interrompida, matando-a afogada. No decorrer do longa, Deane adentra a psique de Stargher, encontrando seus alter-egos e revisitando traumas de infância, tudo através do imaginário sádico e perturbador do assassino.

Stargher é uma figura freudiana clássica. Freud estudou, além dos sonhos, os fetiches e pulsações sexuais, acreditando que no cerne de tudo estavam os desejos, quase sempre reprimidos e sexuais, oriundos da infância (FORRESTER, 2013, p. 12 e 29). No filme, Stargher foi torturado pelo pai enquanto criança, traumatizado por quase ter sido afogado em seu batizado, reprimindo sua paixão e fetiche por bonecas, resultando na vida adulta por afogar suas vítimas e realizar-se sexualmente ao erguer-se por argolas, masturbando-se sobre elas. Tudo isso é refletido em seu inconsciente, quando Deane visita sua mente: Stargher, além de soberano dessa realidade, possui uma sala com versões fetichistas e mecânicas de suas vítimas, como bonecas, além de aparecer símbolos que remetem ao seu distúrbio e necessidade de posse, como as coleiras.

Fica visível a importância da água no filme. Outro ponto interessante a analisar, por fora, é a suspensão corporal de Stargher, feita a partir de argolas perfuradas no corpo. No inconsciente de Stargher, essas argolas são de suma importância e surgem em diversos momentos, como veremos na análise das cenas, como um símbolo de poder. Há um diálogo, no próprio filme, em que Deane faz uma analogia entre esses dois pontos, afirmando que “a suspensão é feita para sentir uma ausência de peso, como a sensação de boiar”. Coincidência ou não, a própria máquina que faz a ligação do consciente ao inconsciente funciona a partir da suspensão dos usuários (figura abaixo). Parker, em O mundo dos sonhos (1985), relaciona a água às emoções, intuições e instintos mais profundos, sendo um elemento capaz de confortar ou tornar-se consciente de medos profundos (p. 83), é o elemento que tanto aperta o gatilho nos traumas (ao ser batizado) quanto o que encerra (ao ser afogado por uma Virgem Maria), ambas relacionadas ao caráter religioso e purificador que a água trás. Ainda Parker, mas em O Livro dos Sonhos (1996), relaciona o ato de boiar à segurança emocional, estabilidade (p.46). As modificações corporais, por sua vez, também trazem um caráter religioso milenar, ao suspender-se e utilizar piercings como símbolo de sua força (ganhando perfurações ao ficar mais forte, perdendo ao ficar mais fraco) que pode simbolizar o quanto Stargher deseja ser dono de seu próprio corpo, dos próprios desejos, de se estabilizar.

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Acima, Stargher sendo suspenso. Abaixo, a máquina capaz de transportar a consciência.

Como dito, Freud acreditava que os sonhos eram fruto de desejos reprimidos, distorcidos pela censura do consciente, mas ainda vai além: nos sonhos “não há medo, esperança, culpa nem vergonha: há apenas desejo e aversão” (FORRESTER, 2013, p. 33). Jung, seu discípulo, ao desenvolver os arquétipos, comenta sobre uma persona e uma sombra, sendo a primeira a personalidade que assumimos na vida cotidiana; e a segunda, o “nós” que reprimimos (PARKER, 1985, p. 26). Num paralelo ao filme, o inconsciente de Stargher é puramente um mundo de desejos, sejam eles aceitos moralmente ou não, a partir da personificação de seu lado sombra.

Santaella, em O que é semiótica (1990), afirma que tudo aquilo que o homem sente também é linguagem, seja a linguagem dos ruídos, dos ventos ou até do silêncio. E que os sonhos, desde Freud, também se estrutura como linguagem. E, sendo assim, também podem ser investigados semioticamente.

Freud utilizava de algumas categorias para interpretar os sonhos, a partir do primeiro olhar e em seguida dos símbolos que aparecem e as distorções (como a primeiridade e secundidade de Peirce), porém com algumas peculiaridades. Serão utilizadas estas categorias para analisar as sequências neste capitulo, a partir das explicações de Humberto Nagera em Teoria dos Sonhos (1981), tentando capturar sua essência. São elas: a Livre Associação – tudo aquilo que remete ao observador num primeiro momento; Conteúdo Manifesto e Latente – tudo aquilo que é observado e o que é interpretado, como Parker comenta (1996, p. 14): “Freud [sugere] que nossos sonhos tem um conteúdo manifesto (o que acontece no sonho) e um conteúdo latente (o que o sonho tenta nos dizer)”. Resíduos do Dia e Distorção – tudo que é reconhecível e do cotidiano são Resíduos, e a Distorção surge quando o inconsciente constrói mas a censura e recalque o faz reconstruir, gerando essa característica particular dos sonhos e do surrealismo, consequentemente; e por último, a Simbologia – a necessidade de interpretar os símbolos.

O BATISMO DE SANGUE

Conteúdo Manifesto: ao entrar no inconsciente de Stargher, temos a realização de seu batizado quando criança, num lago, com todos vestindo branco e a emersão de seu corpo (1). Há um jogo de câmera, mostrando abaixo da água e chegando numa espécie de subsolo, com Deane deitada sobre o chão (2). Deane está com o rosto coberto por um tecido, onde cai uma gota de sangue; há sangue pingando em outros pontos do local; ela retira o tecido (3); um cachorro preto entra num cômodo, se molha e chacoalha um líquido vermelho (4).

Conteúdo Latente e Livre Associação: é o primeiro momento na mente de Stargher, iniciando por seu batismo que, provavelmente, tenha sido um ponto crucial em sua vida, causando um trauma (por quase ter se afogado) e, por utilizar da água, justificar a presença deste elemento no decorrer do filme, tanto quanto purificador quanto traumatizante. É a porta de entrada. Já dentro, ao retirar o véu, Deane pode sugerir que, agora, está apta a visualizar este mundo. O líquido vermelho, provavelmente sangue, numa associação livre, pode indicar como Stargher enxerga seu batismo. Um cachorro querendo tirar este sangue de seu corpo, uma imagem de como Stargher gostaria de se livrar deste episódio de sua vida.

Resíduos do Dia e Distorção: pessoas no batismo, água, sangue, véu, cachorro. Itens do cotidiano que surgem neste sonho, distorcidos e misturados. Um pano cobre a face de quem entra na máquina (Fig. 2), assim como um pano cobre sua face dentro do sonho, é um dos maiores indicadores de um Resíduo do Dia. Da influência da vigília. A atmosfera sombria, os pingos de sangue que caem do teto e o cachorro em slowmotion indicam a distorção da realidade.

Simbologia: numa leitura freudiana clássica, o véu simboliza a castidade e inocência sexual, assim como a seda é um símbolo tipicamente sensual. O fato de tirar o véu (ou a venda), pode indicar essa abertura para o novo universo de fetiches e sexualidade de Stargher, a perda da inocência. Parker (1996, p. 84) diz que estes itens podem sugerir o acobertamento de algo e, sendo assim, a retirada deles sugere o contrário, além do véu ter uma conotação espiritual, que nos remete ao batizado. Lagos aludem ao processo de nascer, enquanto o batismo indica um novo começo (p. 46 e 181) e, como vimos, sendo a água um componente emocional, há na abertura do filme toda uma simbologia que remete ao início do que conhecemos de Stargher, onde tudo começou, sendo a porta de entrada ao querer entendê-lo, reforçado pela ideia de que o batismo, segundo Brian Innes (2013, p. 201), é um ritual, também, de boas-vindas. Tanto Parker (1996, p. 91) quanto Innes (2013, p. 164) afirmam que o sangue é um símbolo forte e amplo dentro dos sonhos mas, de maneira geral, concordam que representa a energia vital, o rejuvenescimento. A mente de Stargher está pingando sangue, o que pode sugerir, segundo essa leitura, que sua mente ou corpo está a esvair-se, perdendo energia. O que relaciona ao fato de estar em coma. Sonhos com animais são muito comuns, sendo o cavalo e o cachorro os que mais aparecem, estatisticamente, além de possuírem uma vasta simbologia dependendo de quem sonha e do contexto do sonho, Parker ainda levanta algumas definições clássicas e freudianas, como o cavalo estar relacionado à sexualidade masculina e o cachorro, à lealdade (1996, p. 42). Nesta primeira sequência, a partir dessa leitura, podemos dizer que há a tentativa de Stargher em se recuperar através de seu animal preferido (e também de estimação, por possuir um cachorro albino), ao mesmo tempo em que se fere (por se molhar no sangue e tentar se secar). O cavalo também surge na sequência seguinte, porém será tratada no capítulo 2, pois é uma referência ao artista Damian Hirst.

O SACRIFÍCIO SAGRADO

Conteúdo Manifesto: Stargher é forçado a entrar na mente de Deane, invertendo os papéis. Deane surge como a Virgem Maria, com uma vestimenta branca e vermelha (1). Há dois pavões albinos ao seu lado, assim como uma flor a suas costas. Ela chama por Stargher (criança), mas Stargher (adulto) surge de uma espécie de piscina, tirando sua capa e percorrendo o espaço, com árvores de sakura ao redor. Deane transforma-se, então, numa figura caçadora, roupa preta, disparando flechas em Stargher (adulto), derrubando-o (2). Ela retira o piercing dos mamilos a força, crava uma espada e dá socos em sua face, deixando-o ensanguentado (3). Stargher (criança) sofre essas agressões, também, ficando ferido. Deane, de volta à figura de Virgem Maria, segura o corpo do garoto e o afoga na água (4).

Conteúdo Latente e Livre Associação: como na análise anterior, a água assume um papel importante na cena. Se no início foi o motivo de seu trauma (ao ser batizado), aqui ela purifica, no momento em que ele morre nas mãos de uma Virgem Maria, outra alegoria que remete à religiosidade. Ao assumir a forma de uma caçadora com arco e flecha, é possível associar à figura de Diana/ Ártemis da mitologia, divindade da caça. Ao abater sua vítima, ela retira seus piercings à força. Como comentado, o piercing entra como alegoria de força para Stargher, como propõe a suspensão corporal. Assim, ele perde tanto sua força quanto, talvez, suas motivações, acabando derrotado e afetando, também, sua versão infantil. Num ato de misericórdia, Deane, como Virgem Maria, segura seu corpo e o afoga.

Resíduos do Dia e Distorção: pavões, água, acessórios religiosos, árvores, neve. Itens do cotidiano que surgem neste sonho, distorcidos e misturados. Antes de adentrar na máquina, Deane observa um globo de neve e uma carta que, provavelmente, seja do tarô. Ao entrar no sonho, ela está vestida semelhante à carta, com a neve e as árvores de sakura, que indicam os Resíduos do Dia, da influência da vígilia no sonho. A mudança de personalidade, as alegorias e exagero indicam a distorção da realidade.

Simbologia: Innes (2013, p. 136) comenta sobre sonhos que ocorrem em jardins. Por mais que possuam elementos distintos e que podem ser lidos individualmente (como as plantas, flores e portões), de maneira geral representa o “eu” do sonhador. Nesta sequência, Deane e Stargher estão num jardim e pode representar o inconsciente de ambos. Innes ainda cita que o crescimento de ervas daninhas ou mato estão associados à confusão e indicam que o estado mental de quem o sonha está em estado semelhante. Num trecho da sequência, numa conversa entre os dois, uma moldura de ervas é construída para em seguida murchar. Além de poder representar o elo entre as personagens, nessa leitura de Innes também indica o estado em desconstrução de Starguer (que ainda está em coma). Stargher criança aparece como sua contraparte, seu lado inocente e puro; enquanto Deane como Virgem Maria também traz essa inocência, além da maternidade. Quanto a estes símbolos, Innes (2013) confirma a relação entre a figura da criança à parte imatura da personalidade de quem sonha, assim como uma ideia que pode precisar de encorajamento (p. 168), enquanto Madonnas são arquétipos da mãe que podem sugerir a relação entre o sonhador, especialmente homem, e as mulheres (p. 173). Starguer criança é quem sugere à Deane que o mate, ele traz essa ideia, principalmente por confiar nessa figura materna, encaixando nesta leitura de Innes dos símbolos. Parker (1996, p. 118) diz que as armas, em geral, são símbolos fálicos freudianos. A caçada de Deane à Stargher e sua morte trazem uma simbologia diversificada. Innes (2013) associa a prática de arco e flecha à busca por um objetivo – acertando a flecha seria um sinal de sucesso (p. 213). Já a morte sem sofrimento, um símbolo de renascimento, de deixar partir algo já desgastado da personalidade (p. 161). A partir dessa leitura, é possível dizer que Deane já alcança seu objetivo ao acertar sua flecha, porém precisa realizar um último ato caso queira livrar Stargher de seus próprios pecados, matando-o de maneira indolor, sobre a imagem da Virgem Maria, e o libertando.

 

Parte de um artigo apresentado para pós-graduação em História da Arte. Segunda parte (As Referências Artísticas do filme) em breve.

REFERÊNCIAS

BENJAMIN, Walter. A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica. 1955.
BRADLEY, Fiona. Movimento da Arte Moderna: Surrealismo. 2ª ed. São Paulo: Cosac Naify, 2004.
FORRESTER, John. Interpretação dos Sonhos – A Caixa-Preta dos Desejos (Coleção Para Ler Freud). 2ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013.
INNES, Brian. O Almanaque Ilustrado dos Sonhos. São Paulo: Escala. 2013.
MOORHEAD, Joanne. The Surrealist Muses Who Roared. The Guardian, 2010. Disponível em http://www.theguardian.com/lifeandstyle/2010/jun/18/surrealist-muses-who-roared-mexico. Acessado em: 16/06/2016.
NAGERA, Humberto. Conceitos Psicanalíticos Básicos da Teoria dos sonhos. São Paulo: Cultrix, 1981.
PARKER, Julia e Derek. O Livro dos Sonhos: Guia Completo Para Você Entender Seus Sonhos e Aprender Com Eles. São Paulo: Publifolha, 1996.
PARKER, Julia e Derek. O Mundo dos Sonhos. São Paulo: Círculo do Livro, 1985.
PEREZ, Karine Gomes. Apontamentos Sobre o Conceito de Apropriação e seus Desdobramentos na Arte Contemporânea. Revista Digital Art &; Ano VI Nº 10, 2008. Disponível em: http://www.revista.art.br/site-numero-10/trabalhos/42.htm. Acessado em 15/06/2016.
SANTAELLA, Lúcia. O Que É Semiótica. São Paulo: Brasiliense, 1990.

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Estudante de Artes, consumidor compulsivo de HQs, amante da psicodelia, sonhos, nonsense, teorias da conspiração e colagens. Um mutante. Autor da Central dos Sonhos. + www.filfelix.com.br