[Especial] O Sonho Como Forma Relacional!

[Especial] O Sonho Como Forma Relacional!

O intuito desta pesquisa é observar o sonho como linguagem e estabelecer uma conexão com a teoria da Estética Relacional do Nicolas Bourriaud. Sigmund Freud foi o responsável pela desmistificação do universo onírico ao publicar A Interpretação dos Sonhos em 1900, tirando-o das definições místico-religiosas e o tratando como fenômeno psicológico com influências do cotidiano. Deu origem à psicanálise e ao surgimento do movimento surrealista em 1924. Outros teóricos deram continuidade, expandiram ou revogaram suas pesquisas, como seu discípulo Carl G. Jung com os conceitos de Inconsciente Coletivo.

Lúcia Santaella diz, em O Que é Semiótica (1990), que desde Freud os sonhos já se estruturam como linguagem e, sendo assim, podem ser investigados e lidos tais como qualquer outra. É na década de 1990, também, que o crítico de arte francês Nicolas Bourriaud cunha o termo e publica o livro Estética Relacional, com a intenção de analisar artistas e obras de arte que vinham tomando força durante aquela década e a década anterior, com propostas que visavam não apenas a interação entre espectador e obra, mas sim uma experiência além, tomando o espectador como parte integrante da obra. Bourriaud define este tipo de experiência como relacional, partindo de uma estética ou forma relacional.

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O Milagre da Hóstia de Paolo Uccello (1467–1468)

A FORMA RELACIONAL DE BOURRIAUD

Nicolas Bourriaud deixa bastante claro em Estética Relacional, através de um glossário, a definição de três termos muito utilizados durante seu texto, que são:

1 – Forma: “unidade estrutural que imita um mundo. A prática artística consiste em criar uma forma capaz de “durar”, fazendo com que entidades heterogêneas se encontrem num plano coerente para produzir uma relação com o mundo” (2009, p. 150).

E a respeito desta forma e sua relação entre o espectador e o mundo, Bourriaud ainda afirma que as obras de arte, hoje, já não procuram formar realidades imaginárias ou utópicas, mas sim criar modelos de existência dentro da realidade existente, independente da poética escolhida pelo artista (2009, p. 18).

2 – Relacional (Arte): “conjunto de práticas artísticas que tornam como ponto de partida teórico e prático o grupo das relações humanas e seu contexto social, em vez de um espaço autônomo e privativo” (2009, p. 151).

3 – Relacional (Estética): “teoria estética que consiste em julgar as obras de arte em função das relações inter-humanas que elas figuram, produzem ou criam” (2009, p. 151).

Assim, Bourriaud inverte os objetivos estéticos, culturais e políticos deixados pela arte moderna, optando pela existência de uma arte relacional que “toma como horizonte teórico a esfera das interações humanas e seu contexto social mais do que a afirmação de um espaço simbólico autônomo e privado” (2009, p. 19). Muito em consequência à globalização e urbanização da sociedade, onde as cidades permitiram maior proximidade e vínculo entre as pessoas.

A estética relacional, porém, não se trata de uma teoria da arte. Bourriaud a trata como uma teoria da forma: “uma unidade coerente, uma estrutura (entidade autônoma de dependências internas) que apresenta as características de um mundo” (2009, p. 26). Com isso ele expande o campo relacional e permite novas leituras além da obra de arte, que não detém o monopólio da forma.

Bourriaud ainda define a boa obra de arte como uma forma que permite o diálogo, que se abra para a discussão e não apenas exista em seu espaço. Cita Marcel Duchamp, que já trabalhava com essa “forma de negociação inter-humana [que Duchamp] chamava de ‘o coeficiente de arte’” (2009, p. 57).

A forma, então e para Nicolas Bourriaud, é uma unidade coerente, uma estrutura capaz de apresentar um mundo. Dentro da arte contemporânea, modelos de um mundo capaz de ser experimentados na realidade, ao contrário dos modelos utópicos da arte moderna. A forma, que não está presente apenas nas obras de arte, é um conceito fluido que se transforma e evolui conforme “a discussão estética evolui, o estatuto da forma evolui com ela e através dela” (2009, p. 30). Serge Daney, citado por Bourriaud, define a forma como “um rosto que nos olha”: a representação do desejo numa imagem; e produzir uma forma é criar o ambiente para um espaço de troca, e convidar o outro para o diálogo (2009, p. 32).

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Os Amantes de René Magritte (1928)

O SONHO SEGUNDO FREUD

Ao publicar A Interpretação dos Sonhos em 1900, Freud relaciona os sonhos aos desejos e impulsos sexuais, como John Forrester comenta em A Caixa Preta dos Desejos: “a lição mais importante do livro é, sem dúvida, a afirmação de que a força motivadora dos sonhos é a realização de desejos” (2013, p. 12). Tais desejos são vistos com imparcialidade no início, podendo referir-se à desejos diversos como sede, fome, desejos reprimidos ou remanescentes da vigília; mas logo são descartados para afirmar que o tal desejo possui origem na infância (2013, p. 29).

Forrester destrincha a importância do desejo para o conceito freudiano dos sonhos em diversos momentos. Dois deles podem ser destacados para melhor entendimento:

1 – “O sonho é a realização (disfarçada) de um desejo (suprimido […] ou recalcado)” (2013, p.60).

2 – “Um produto do inconsciente onde “não há medo, esperança, culpa nem vergonha: há apenas desejo e aversão” (2013, p. 33).

Assim, Freud considerava os sonhos como produto dos desejos reprimidos pelo consciente. Uma maneira do inconsciente de representá-los e realizá-los dentro de um espaço onde não haveria as travas morais e éticas da sociedade. Forrester ainda comenta a distorção da realidade que ocorre num sonho, que impede a criação deste espaço: o consciente age como um agente de censura, distorcendo e dificultando seu entendimento propositadamente (2013, p. 72). Pois, mesmo com o inconsciente querendo expor tais desejos, o consciente e suas travas morais e éticas ainda consegue bloquear, forçando o inconsciente a mascarar tais desejos, gerando a distorção. Daí a importância da interpretação.

Derek e Julia Parker em O Mundo dos Sonhos (1985, p. 11), afirma que a opinião geral dos estudiosos dos sonhos, desde Freud, é que alguns podem ter significado nenhum, apenas memórias distorcidas; enquanto muitos são provavelmente mensagens do inconsciente e mais: “podem constituir a fonte principal de informações sobre nós […], já que os sonhos não são afetados por considerações sociais”. Em contrapartida, Renato Sabbatini em seu artigo Os Sonhos Têm Significado? (2000), rebate as teorias freudianas ao afirmar que os neurocientistas sérios descartaram tais ideias por serem inconsistentes, que o sonho é maior influenciado pela experiência da vigília e estimulação externa durante a noite mais que outras experiências passadas: “os sonhos seriam, então, apenas “flashes” aleatórios e fragmentados de memórias adquiridas durante o dia, e que passam pelo cérebro várias vezes por noite, sem nenhuma lógica ou controle”.

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Mirror Mask (2005)

O SONHO COMO FORMA RELACIONAL

Tendo Bourriaud expandido o conceito de forma não apenas para o campo da arte e o sonho considerado uma linguagem, conforme vistos, fica visível a possibilidade de estabelecer uma conexão entre ambos. A psicanálise é a experiência de interpretar o inconsciente, e Bourriaud destina uma parte de sua Estética Relacional a comentá-la em relação à arte:

Psicanálise e arte? Duas modalidades de produção de subjetividade interligadas, dois regimes de funcionamento, dois sistemas de instrumentais privilegiados que se unem para a possível solução do “mal-estar na civilização”… A posição central que Guattari atribui à subjetividade determina de ponta a ponta sua concepção da arte e seu respectivo valor. A subjetividade como produção, no dispositivo guattariano, desempenha o papel de pivô ao qual os modos de conhecimento e ação podem se engatar livremente e se lançar em busca das leis do socius. (2009, p. 123)

A maior característica que une as duas teorias é a do desejo. Bourriaud, através de Serge Daney, define a forma como uma imagem que representa um desejo. Freud define o sonho como a representação do desejo. Assim, o sonho pode ser tratado como uma forma relacional, já que ambos retratam um desejo. Enquanto na imagem este desejo estabelece um diálogo, o sonho também cria um ambiente que convida o outro a uma troca, como a interpretação.

Mas para uma forma ser relacional, ela precisa utilizar das interações humanas e seu contexto social, justamente para estabelecer este diálogo. Derek e Julia Parker, citando Jung, enfatiza que “a interpretação dos sonhos e seus símbolos depende das circunstâncias individuais e de seu estado mental” (1985, p. 24).

O sonho, como forma relacional, pode ser esta imagem fruto de um desejo que convida ao diálogo, que abre espaço e ambiente para a troca e negociação através da interpretação e psicanálise. O sonho ainda é uma linguagem que se mantém dentro de sua estrutura, podendo apresentar as características de um mundo. Mundo esse gerado por quem o sonha.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A pesquisa teve como objetivo estabelecer uma conexão entre o sonho, através dos conceitos freudianos, à Estética Relacional de Nicolas Bourriaud. O principal ponto utilizado foi o da representação do desejo, que surge em ambos os conceitos. O conceito de desejo, entretanto, é amplo e diverso. Se numa imagem ou forma relacional ele aparece como a necessidade de estabelecer um diálogo com o espectador; para Freud o sonho retratava o próprio desejo de quem o sonha, distorcido pelo consciente. Mas, ainda assim, exige a necessidade de quem o sonha em interpretá-lo.

Em ambas situações é preciso haver o diálogo, essa troca ou negociação. Seja entre espectador e obra, seja entre sonhador e sonho. E, também, em ambos, esse canal do diálogo é variável e depende das circunstâncias e contextos sociais a que o indivíduo está submetido. Sendo assim, a pesquisa leva a acreditar que é possível observar o sonho como uma forma relacional.

Daney, citado por Bourriaud, define as formas como um rosto que nos olha, levantando a questão: “já que as formas nos olham, como devemos olhá-las?” (2009, p. 29). Jung, citado por Derek e Julia Parker, levanta outras afirmações que, apesar de românticas, são relevantes: “a pessoa não sonha, ela é sonhada […] nós passamos pelo sonho, somos os objetos” (1985, p. 26). Então, como olhar para o sonho relacional?

Parte de um artigo apresentado para pós-graduação em História da Arte.

REFERÊNCIAS

BOURRIAUD, Nicolas. Estética Relacional. 1º ed. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

FORRESTER, John. Interpretação dos Sonhos – A Caixa-Preta dos Desejos (Coleção Para Ler Freud). 2ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013.

PARKER, Derek e Julia. O Mundo dos Sonhos. São Paulo: Círculo do Livro, 1985.

SABBATINI, Renato. Os Sonhos Têm Significado?, 2000. Disponível em <http://www.sabbatini.com/renato/correio/medicina/cp001027.html> Acesso em: 20 de Setembro de 2016.

SANTAELLA, Lúcia. O Que É Semiótica. São Paulo: Brasiliense, 1990.

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Estudante de Artes, consumidor compulsivo de HQs, amante da psicodelia, sonhos, nonsense, teorias da conspiração e colagens. Um mutante. Autor da Central dos Sonhos. + www.filfelix.com.br