[Review] Mundo Pet !

[Review] Mundo Pet !

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Editora/Ano: Devir, 2004
Preço/ Páginas: R$32,00/ 112 páginas
Gênero: Alternativo/ Biografia
Roteiro/ Arte: Lourenço Mutarelli
Sinopse: Mundo Pet é uma coletânea de histórias produzidas originalmente para o site Cybercomix. Quem está acostumado a ver a arte em preto e branco de Lourenço Mutarelli irá se surpreender com as páginas coloridas deste álbum. São todas histórias experimentais criadas de abril de 1998 a outubro de 2000, quando o autor ainda estava desenvolvendo “O Dobro de Cinco” e “O Rei do Ponto”, os dois primeiros volumes da trilogia do detetive Diomedes, considerada por muitos a sua obra-prima até o momento. Nesta edição você irá conhecer raros e negros momentos de humor em histórias assinadas por um dos artistas mais importantes e originais do quadrinho brasileiro.

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Lourenço Mutarelli é um premiado quadrinista brasileiro, sendo um dos mais prestigiados do país, tendo ganho diversos prêmios, entre eles o HQMix e o Angelo Agostini. Seu trabalho é bem característico, sempre abusando do preto e branco em histórias melancólicas. Nos quadrinhos já publicou obras como A Soma de Tudo, O Dobro de Cinco e O Cheiro do Ralo, também já lançou romances e participações no teatro e cinema.
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Conheci seu trabalho através do filme Nina (2004), dirigido por Heitor Dhalia (que mais tarde adaptaria O Cheiro do Ralo), trazendo Guta Stresser (A Grande Família) no papel de Nina e Myrian Muniz (Amélia) como Dona Eulália, sua antagonista. É um dos meus filmes prediletos e teve a arte criada por Mutarelli, onde o mesmo criou as seqüências de animação, além da produção possuir todo um clima sombrio e triste, contrastando com o agito underground do centro de São Paulo.
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Entre 1998 e 2000, Mutarelli foi convidado a participar do site CyberComix, criando histórias curtas. O único porém é que deveriam ser títulos coloridos e que houvesse um certo tom de humor. Ao todo foram 12 histórias, compiladas em Mundo Pet e lançado pela Devir em 2004. Os acostumados com o traço de Mutarelli irá estranhar, de início, as histórias, porém logo percebe que toda a essência do autor está lá.
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Como em qualquer coletânea, há as histórias que lhe agradam e há aquelas que, por algum motivo ou outro, você não gosta. Isso é natural e com Mundo Pet não foi diferente. De início, podemos considerar as histórias como “contos ilustrados”, pois possuem longas passagens de texto (para o padrão HQ) e seguido de ilustrações. Em comum, todas utilizam do surreal e de metáforas visuais interessantes, por vezes levantando perguntas nunca imaginadas. Apesar de considerar uma qualidade, a franqueza dos fatos mostrados, sem nenhum pudor, incluindo palavrões, cenas de nudez e mortes, pode afastar alguns leitores mais “conservadores”.
 
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A edição da Devir contem duas ótimas introduções, uma de Heinar Maracy, editor da CyberComix, e outra do próprio Mutarelli. Ao final, um posfácio de Lucimar Mutarelli, sua esposa. Desde o início somos avisados que se tratam de histórias alternativas, “experimentais” e, de fato, é o que nos espera. A arte é toda colorida, variando de estilo em cada história, ora usando aquarela com traços mais “borrados”, ora utilizando de arte “tradicional”. Mutarelli também experimenta o uso de fotografias e colagens, algo que, particularmente, gosto muito.
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Mas não é na arte que Mundo Pet se sustenta. O roteiro das histórias são interessantes e, numa primeira leitura (as vezes duas, kk) são “complexos” demais. Unindo arte e texto temos algumas das histórias mais estranhas que já li. O humor negro utilizado é bem tênue, e o destaque fica para as mensagens ou perguntas que surgem no decorrer dos textos, como “por que sorrimos ao tirar fotos?” ou ao quanto somos dispensáveis à outras pessoas. Sem dúvida, apesar de esquisitas, foram bem construídas.
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Grande parte das histórias é autobiográfica, mostrando momentos da vida do autor, onde ele não possui vergonha alguma em expor intimidades e sentimentos. Entre as histórias, as que mais gostei são “Estampa Forjada”, onde Lourenço visita sua avó numa Casa de Repouso, trazendo a primeira “piada”, quando ele visita a velhinha pela última vez; “A Ninguém é Dado Alegar O Desconhecimento da Lei”, onde um homem, sentindo-se abandonado pelas pessoas, resolve cavar um túnel na própria casa; em “Mundo Pet” temos o vício em quadrinhos expressado viralmente; em “Morfologia”, um homem fica entre a realidade e a imaginação ao abrigar em sua casa um senhor que, apesar de não conhecer seu nome nem nada, sente que o mesmo é muito familiar; e por último em “Somos Todos Iguais Perante A Lei”, temos um cara que acorda num bar, sendo chamado por um nome que acredita não ser seu, porém segue as instruções das pessoas ao seu redor. Essa última, em particular, possui um dos finais mais interessantes do álbum.
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Mas por se tratar de uma coletânea, como dito, é difícil agradar à todos, e acredito que essa nem seja a vontade do autor. O restante das histórias são interessantes, porém não são marcantes, como Crianças Desaparecidas e Meu Primeiro Amor, e outras onde eu realmente “boiei”. Varia de leitor para leitor.
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Como de costume, o acabamento dos álbuns da Devir são ótimos, mas também caros. Mundo Pet possui capa cartão, miolo couché, introduções e relação dos títulos produzidos por Mutarelli e os prêmios conquistados. Extras como uma matéria especial sobre o que foi e o que representou o Cybercomix ficou faltando. Como informado na sinopse, Mundo Pet é algo experimental, que utiliza de diversas linhas de arte ao narrar uma história, como desenhos, aquarelas, pintura sobre fotografias, colagens e edições grosseiras em “photoshops”, como na última história (Dói Story) onde é usado soldadinhos de plástico, todas mostrando um outro lado da sociedade.
nota 8,5 o
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Estudante de Artes, consumidor compulsivo de HQs, amante da psicodelia, sonhos, nonsense, teorias da conspiração e colagens. Um mutante. Autor da Central dos Sonhos. + www.filfelix.com.br