[Review] Prontuário 666: Os Anos de Cárcere de Zé do Caixão!

[Review] Prontuário 666: Os Anos de Cárcere de Zé do Caixão!

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Nome Original: Prontuário 666: Os Anos de Cárcere de Zé do Caixão
Editora/Ano: Conrad, 2008
Preço/ Páginas: R$27,00/ 120 páginas
Gênero: Terror
Roteiro: Adriana Brunstein & Samuel Casal
Arte: Samuel Casal
Sinopse: A história se passa durante os 40 anos em que Zé do Caixão esteve preso – desde 1968, logo após o clássico filme Esta Noite Encarnarei no teu Cadáver até o atual Encarnação do Demônio. No livro é revelado o verdadeiro nome de Zé do Caixão, bem como as terríveis experiências que o personagem promove na cadeia que ele chama de “zoológico humano”. Com argumento e co-roteiro de Adriana Brunstein, Prontuário 666 (número da ficha do personagem no sistema carcerário) é a melhor introdução para o novo mundo de Zé do Caixão.
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Zé do Caixão é um personagem icônico da nossa cultura, já enraizado no coletivo popular, sempre visto como uma criatura maléfica ligada ao sobrenatural. O que poucos sabem é que Zé do Caixão é cético contra tudo isso ao que é relacionado, sendo ateu, materialista, herege, incrédulo ou iconoclasta, como dito na própria HQ. Para ele, sua vida só poderá ser perpetuada na pele de um herdeiro gerado pela mulher perfeita e, no caminho dessa busca, não poupará quem estiver no caminho. Acredita ser superior em relação às outras pessoas, as considerando ignorantes demais para enxergarem o real mundo ou abandonarem sua fé contraditória, sendo assim, os utiliza para seus experimentos macabros e sanguinolentos.
 
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Josefel Zanatas, nome verdadeiro de Zé do Caixão, foi criado e interpretado por José Mojica Marins em 1964 no filme À Meia-Noite Levarei Tua Alma, considerado um dos precursores do gênero trash no país. Mesmo sendo considerado cult hoje em dia, na época de seu lançamento foi fortemente criticado pela mídia especializada, que o viu como um filme grotesco e desnecessário. Porém, em 1967, chega a continuação Esta Noite Encarnarei em Teu Cadáver, trazendo o coveiro, mais uma vez, em busca da mulher perfeita.
 
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Desde o início, José Mojica deixou claro que os dois filmes faziam parte de uma trilogia, que seria encerrada em Encarnação do Demônio, porém nunca teve verba para a produção do filme, que ficou no ocaso durante 40 anos. Nesse período, Mojica criou diversos outros filmes, igualmente trashs e bizarros, como A Virgem e o Machão e Delírios de um Anormal. Durante a década de 70 e 80, Mojica também se rendeu à pornochanchada e até ao sexo explícito, como em 24 Horas de Sexo Explícito e sua continuação, 48 Horas de Sexo Alucinante, unindo seu estilo bizarro ao mundo do pornô, lembrando diretores como John Waters (Pink Flamingos), mas com menos glamour.
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O personagem Zé do Caixão apareceu em vários de seus filmes, porém a continuação de Esta Noite Encanarei em Teu Cadáver ficou no ocaso durante 40 anos. Ficou, já que em 2008 o Ministério da Cultura apoiou o projeto de Mojica e assim foi possível a produção de Encarnação do Demônio, finalizando a trilogia com chave de ouro, sendo exibido em diversas mostras de cinema de horror pelo mundo.
 
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Mas como explicar o sumiço de Zé do Caixão durante todos esses anos ? O que teria feito ele, onde esteve ? Assim que surgi a HQ Prontuário 666, tentando preencher essa lacuna. Samuel Casal e Bruna Stein, os autores da HQ, sugeriram que Zé permaneceu preso, pelos seus crimes cometidos nos dois primeiros filmes, durante quatro décadas na Casa de Detenção de São Paulo, o famoso Carandiru. Nesse período, teve a oportunidade ideal de por em ação seus mais temíveis experimentos com cobaias humanas, utilizando de detentos e funcionários, servindo como uma espécie de prólogo ao filme.
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A arte de Samuel Casal é excelente, lembrando Sin City, a principio, mas consegue ir além, sendo inusitada e detalhista. É possível ver aquele gato deitado no distante telhado, a estação do Carandiru passando no fundo, ou até mesmo a fiação dos postes. Tudo feito no preto e branco, com altos contrastes e uma anatomia mais “quadrada” em certas partes, algo típico da arte de Casal. Acrescente à arte o excelente roteiro, com uma ótima narrativa e “mensagens subliminares”, temos uma das melhores HQs nacionais.
 
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O acabamento que a editora Conrad deu a obra é à altura: capa cartonada, miolo com folhas grossas e boa impressão, realçando a arte. O acabamento é bem firme e não há perigo das folhas se soltarem, algo comum em alguns de seus mangás. De extras, temos uma ótima introdução escrita por Paulo Sacramento, contextualizando o personagem Zé do Caixão aos tempos atuais, o apresentado-o para quem não o conhece e informando as diversas mídias pelas quais passou, já que não é a primeira vez que Zé protagoniza uma história em quadrinhos (estreou a revista Estranho Mundo de Zé do Caixão no final da década de 60 além de diversos especiais de lá pra cá). Paulo Sacramento é responsável pelo documentário O Prisioneiro da Grade de Ferro, que inspirou a HQ, além de produtor do próprio Encarnação do Demônio. Ao final da edição, temos o personagem representado na arte de diversos artistas.
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Os diálogos da HQ são ótimos, cheio de nuances e “mensagens subliminares”. Num dos melhores (a cena do Rato e Pombo), Zé divide alguns dos presos em dois grupos: os ratos e as pombas. Os ratos seriam aqueles que vivem na sujeira, andam em bandos para causar medo, adora a podridão. Já as pombas, posando de lindas aves, podendo voar para onde quiserem, preferem viver comendo restos e dividindo espaço com os ratos. A seqüência que demonstra essa comparação é muito boa e vemos até alguma analogia ao rato mais famoso do mundo. Para quem já assistiu ao filme nacional Nina (dirigido por Heitor Dhalia, 2004) pode notar certas semelhanças entre as obras, pois o filme é praticamente em preto e branco e possui cenas “em quadrinhos”, que seriam os delírios da personagem principal, Nina, representados por desenhos, criados pelo quadrinhista Lourenço Mutarelli (Mundo Pet). No filme, Nina também divide as pessoas em dois grupos: as ordinárias, que vivem sobre o padrão da sociedade, acomodadas e sem ambição alguma; e as extraordinárias, que querem revolucionar, quebrar paradigmas e sair do padrão da sociedade. Assim como a HQ, é um excelente filme.
 
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Por Zé do Caixão desprezar crendices, a HQ traz fortes críticas às religiões e a fé no geral, trabalhando em cima da ingenuidade das pessoas e seus temores à seres divinos. Isso fica bem claro numa determinada cena, que mostra onde Zé guarda seus segredos: num buraco feito na parede e coberto por uma imagem de Jesus Cristo. Ele sabe que ninguém seria capaz de retirar ou rasgar a imagem dali, ou desconfiar que haveria algo por trás, se aproveitando disso. As cenas finais estão entre as mais legais que já pude ler, mostrando uma discussão entre Zé do Caixão e um padre a respeito de fatos expostos pela Bíblia e suas contradições, colocando o religioso numa saia justa.
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Com tantas qualidades, Prontuário 666 é um must see para qualquer fan de quadrinhos, ainda mais agora, que pode ser encontrado bem em conta. Além do mais, é uma obra que nos dá orgulho, por ser escrita e desenhada por brasileiros, baseada num personagem tão popular que é o Zé do Caixão, conseguindo ser visualmente inusitada, criativa e bizarra, sem fazer a história cair nos clichês que infestaram o personagem.
nota 10 k
*Disponível nas lojas especializadas e em sites. Super recomendado, é possível encontrar por R$15,00 no Submarino. E obrigado Dany e Fernando pela indicação !
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Até !
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Estudante de Artes, consumidor compulsivo de HQs, amante da psicodelia, sonhos, nonsense, teorias da conspiração e colagens. Um mutante. Autor da Central dos Sonhos. + www.filfelix.com.br