[Conto] A Rainha da Noite!

[Conto] A Rainha da Noite!

#Este conto faz parte da Central dos Sonhos. Para conhecer o projeto leia Bem-Vindo à Central dos Sonhos. E para entender a Pandora leia Pandora: a Droga Onírica.

Julie Newmar - A Rainha da Noite - Fil Felix

Se São Paulo possui uma rainha noturna, ela certamente se chama Felícia. Nossa Rainha da Noite! Uma estrela, uma beldade. Daquelas que vemos somente nos cinemas, tamanha sua beleza e singularidade. Posso dizer que sou o homem mais sortudo destas terras por ter conseguido, finalmente, me encontrar com este ser monumental. Felícia emana suspense, é a mulher mais misteriosa dessa cidade.

Nos quatro cantos de São Paulo não se fala noutra coisa, desde os becos do universo underground ao burburinho da classe média: o relato de pessoas – em sua maioria homens – que encontraram uma mulher divinamente especial, que foi capaz de preencher todas as lacunas de seus mais sórdidos desejos sexuais.

Apesar de nosso encontro não ter sido dos mais ortodoxos, estou feliz. Diria até renovado. Uma das experiências mais surreais que já pude ter, não foi apenas um momento de prazer, transcendeu as necessidades da carne. Confesso que me senti um tanto corrompido, conforme falarei mais pra frente. Mas não desqualifica a situação, pelo contrário.

Reavendo a história em minha mente, percebo o jogo do destino. Ah, como percebo… Posso esquecer de algum detalhe no meio do caminho, mas com toda certeza essa história deu início ontem, sexta-feira. Como de costume, saí do trabalho as 17h já imaginando o que faria de noite. Quando não ligo para os meus amigos, com certeza eles me procuram. Gosto da vida noturna, das casas de show, dos barzinhos e boates. De ter contato com a diversidade cultural, das diversas identidades que encontramos nas ruas. E São Paulo reúne tudo isso numa única rua, a famosa Augusta de todos os povos.

O boato de uma mulher arrebatadora percorrendo o grande Centro da cidade já vinha sendo espalhado há algumas semanas. E ontem eu estava disposto a encontrá-la. Minha turma, quase todos já na casa dos trinta, não deram muita bola pra história. Pensaram se tratar de mais uma lenda urbana. Apesar de também me encaixar na faixa etária, não podia me conter de curiosidade.

Naquela noite fomos ao bar Priscilla, um refugo aos que querem passar longe dos inferninhos que se encontram em volta. A escolha partiu da namorada de João, que na verdade não estava confortável no grupo e, com medo de alguma pulada de cerca, nos levou até lá, cujo público é formado, em sua maioria, pela comunidade LGBT.

Não tenho preconceito, não mesmo. Sou o cara mais desencanado desta terra! E às vezes até prefiro esses locais, sempre me dou bem com alguma acompanhante. E se não me dou, me sinto o centro das atenções. Pois não é sempre que encontram um bibelô de ébano como eu, com direito a um bem cuidado e fofo black power em crescimento. Nem preciso comentar sobre outras características…

Priscilla, como sempre, nos aguardava de portas abertas. O sobrado de arquitetura rústica mantêm uma pista principal no térreo, cercada por mesinhas para os que não gostam de dançar e, no andar de cima, uma area voltada aos pombinhos, praticamente um labirinto pouco iluminado, onde a música da pista chega abafada.

Escolhemos uma mesa e, depois de nos acomodarmos, demos início às rodadas de cerveja. Uma atrás da outra e o assunto, entretanto, parecia não mudar. Todos falando de trabalho, da vida pessoal ou qualquer outro problema. Ninguém parecia interessado em levantar e se divertir.

À uma da madrugada o clima na mesa já não era dos melhores. A música de fundo, quase sempre um pop dos anos 80 composto por New Order, Pet Shop Boys e os Duran Duran da vida, mesclando às trilhas de filmes e eternos hinos da comunidade nativa. Tive a impressão, inclusive, de ter ouvido aquele tema de Flashdance umas duas vezes, ABBA nem se fala… Minha turma estampava no rosto uma indiferença que chegava a incomodar, talvez pela primeira vez.

Eu que não iria perder minha noite. Larguei a mesa pra trás e fui à pista. Meu intuito era apenas me divertir, curtir o restante da noite, esquecer os problemas do escritório, aquela monotonia típica de contabilidade, números e burocracia. Só queria abstrair tudo isso… e foi nesse momento que a vi. Que tive a certeza de estar frente à frente com Felícia, a Rainha da Noite.

A pista estava cheia, repleta de todo tipo de gente. Eu era apenas mais um ali no meio, me movimentando sobre as luzes estroboscópicas do lugar. Quase que me misturando às cores, aos feixes luminosos. Uma loucura – admito que já estava um pouco alto, por assim dizer – mas entre o fim de uma música e o início da outra, percebi toda a euforia ao meu redor diminuir de ritmo, como se minha visão estivesse em slow-motion.

Foi então que ela surgiu, em meio à todos, irradiando uma luz própria. Assim como eu, também dançava. Só que trazendo em si uma sensualidade e desenvoltura como nunca vi antes. Parecia, por um momento, que só existia ela e eu na pista. Como se dançasse somente para mim.

Seu corpo voluptuoso se assemelhava às estrelas dos anos 60, vestindo saia e camiseta. Despojada, sexy e, em nenhum momento, aparentava ser vulgar. Seus cabelos negros, cheios, balançavam conforme seus movimentos de dança. Seu rosto trazia uma profundidade na expressão, graças aos olhos grandes e pretos. Sobrancelha fina e lábios delineados, vermelhos. Sua silhueta me lembrava aquela que encarnou a melhor das Mulheres-Gato: Julie Newmar.

Fiquei estarrecido. Minha vontade foi de tomá-la ali mesmo em minhas mãos, fazer juras de amor e deitar em seus braços. Não sei como, mas tinha conhecimento que era a única, a tão comentada Felícia. Pelos boatos, imaginei até que se tratava de alguma drag queen do momento, mas nunca passou pela minha cabeça que fosse alguém de tamanha beleza.

A multidão, até então silenciada e anônima, voltou a se movimentar sobre as luzes e, de repente, tudo havia voltado ao normal. Não era mais eu e ela sozinhos, o tumulto da pista nos engoliu. Mas não dei por derrotado, andei entre as pessoas. A procurei em toda parte e, quando estava prestes a voltar à mesa onde meus amigos estavam, que a vejo entrando subindo as escadas de Priscilla, em direção ao labirinto.

Mil coisas passaram pela minha mente. O que ela faria lá? Será que estava acompanhada? Mas como sempre ocorre nesses momentos, não dei importância pro consciente e corri atrás. Talvez esta seja a parte que me lembro com mais clareza. Lembro até da música que estava tocando quando entrei no corredor, com suas primeiras palavras… Hey lady, you lady… como se ela – a música – estivesse se expressando por mim.

Subi as escadas e corri pelo corredor numa completa escuridão. Aos poucos diminui os passos, tateando as paredes. Num surto, cheguei a chamar por ela. Não obtive sucesso, recebendo de volta ofensas de casais que estavam por perto. Me senti desolado, perdido num enorme deserto, enganado por uma miragem. Num momento, havia avistado a mulher dos meus sonhos, a lenda urbana, o furacão Felícia. No outro, estava completamente só.

Voltei pelo corredor, atravessei a pista animada e colorida, me encontrei com a turma que havia abandonado. Claro que perguntaram onde estava. Se tinha me perdido por alguma mulher. De certa forma, estavam certos. O clima da noite se arrastou por mais um tempo, apesar da felicidade que agora eles estampavam no rosto. Graças ao álcool, que possui essa capacidade de desinibir as pessoas.

Ao sair da Priscilla, ainda vasculhei o lugar com o olhar, a procurando em todos os cantos. João, pra lá de bêbado, soltou um “não se preocupa que ela volta, Guto”. Mal sabia que eu não estava perdido por qualquer mulher, não desta vez.

Voltei pra casa de taxi, não tive coragem de esperar o metrô abrir ou vir a pé. Como não moro muito distante do Centro, a corrida valia a pena. A noite já tinha sido estranha, mas nada supera o que tive em seguida. Ao chegar em casa, tomei uma ducha pra aliviar e logo deitei na cama, pensativo.

Aquele típico momento antes de dormir, onde um turbilhão de mensagens mergulha em nossa mente. Mas não demorei a pegar no sono. E foi então que aconteceu aquilo… algo que só imaginava ter nos filmes. Meu desejo por Felícia foi tão grande que acredito que seu inconsciente transcendeu toda a realidade e veio me encontrar no outro lado da vida. Onde não estamos despertos.

A vi entrando em meu quarto, mas desta vez sem as roupas que usava na Priscilla. Apenas uma fina camisola lhe cobria o corpo. Seus olhos grandes e escuros nunca me pareceram tão sexys. Da cama, aquela visão só poderia ocorrer em sonhos, mesmo. Enquanto ela caminhava em minha direção, meu corpo inteiro se arrepiava, tremendo de desejo.

Como uma onça se preparando pra dar o bote, ela subiu lentamente pela beirada da cama. Passando por cima de mim, aproximando rosto com rosto, ameaçando me beijar os lábios e recuando ao mesmo tempo. Tudo aconteceu tão rápido… e tão lentamente ao mesmo tempo. Num segundo ela estava na porta, e no outro já estava sobre mim, feito dominadora.

Percebia a sombra de seus seios através do tecido branco da camisola. Ela apoiava as mãos em meu peito, parendo se deliciar com ele. E então, passado meu estranhamento inicial, me permiti passar a mão em sua cintura. Segurá-la como se fosse minha. Apertá-la pra nunca mais soltar.

Subindo um pouco mais, acariciei seu pescoço, movimento que a fez delirar e se contorcer. Não aguentei, comecei a descer as mãos, passando pelas costas macias e chegando em sua voluptuosidade… Ahh… era como se estivesse possuindo uma boneca de porcelana.

Mas digo, meus amigos, que foi quando resolvi ser mais invasivo, mais bruto… no melhor sentido da palavra… quando a deitei no colchão, deixando que desta vez eu controlasse a situação, estando por cima… que tive a ruptura de todas as minhas convicções. Passando a mão por suas coxas, subindo a camisola, querendo ter seu sexo como nunca desejei antes, que me deparo com uma incrível surpresa.

Incrível não no sentido de grandeza, não quis dizer isso. Mas nunca antes imaginei passar por uma situação dessas. E, como confessei no início, este encontro nada ortodoxo, com uma mulher nada ortodoxa, me concedeu uma experiência pela qual nunca esquecerei. Me senti como há 15 anos atrás, quando experimentei o amor e o pecado da carne pela primeira vez, onde tudo era novidade. E com Felícia não foi diferente, ao se despir da camisola, seu corpo junto ao meu, transcendemos qualquer fronteira.

E hoje, logo após ter despertado desta inimaginável loucura, pude sentir a vergonha tomando meu corpo. Não pela situação ou por minha Julie Newmar. Mas, talvez lá no fundo, por nunca a ter experimentado antes.

Julie Newmar - A Rainha da Noite - Fil Felix

Conto inspirado nos filmes Priscilla, a Rainha do Deserto, Para Wong Foo e Connie e Carla. Publicado originalmente no site EntreContos, para o desafio “Filmes e Cinema”.

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Estudante de Artes, consumidor compulsivo de HQs, amante da psicodelia, sonhos, nonsense, teorias da conspiração e colagens. Um mutante. Autor da Central dos Sonhos. + www.filfelix.com.br