[Conto] Aquela Velha Inocência!

[Conto] Aquela Velha Inocência!

#Esse conto faz parte da Central dos Sonhos, no formato dos “Arquivos Imaginários”. Para conhecer o projeto leia Bem-Vindo à Central dos Sonhos. E para entender a Pandora leia Pandora: a Droga Onírica.

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O conto abaixo foi publicado originalmente no site EntreContos, uma comunidade online que valoriza escritores e leitores, além de promover “Desafios” temáticos, no qual os próprios participantes precisam ler o texto dos demais e votar, para elegerem um “pódio”. No mês passado (agosto) foi a vez do tema “Bruxas“, pelo qual me interessei bastante e resolvi participar pela primeira vez. Para minha surpresa, meu conto ficou em 2º lugar! Mas como diz o ditado, o que importa não é ganhar, e sim participar ^^. Adorei a experiência e recomendo à todos que gostam de escrever, pois o feedback é enorme, já que o participante (além de ler e dar uma nota) precisa, também, escrever um comentário!

A ilustração que criei é um reflexo do texto, criada através de colagem manual e acabamento digital. Para conferir os Resultados do Desafio “Bruxas” clique aqui, para ler o conto no post original (com os comentários) clique aqui. Abaixo, a republicação do mesmo sem nenhuma alteração (preferi preservar os errinhos). E para quem se interessou nos desafios do EntreContos, o próximo é Desafio Música!

5 Aquela Velha Inocencia (Set-2014) Fil Felix colagem

Há um momento na vida em que a morte parece estar próxima. Sendo possível sentir seu hálito pútrido sobre a nuca. Como se fosse abocanhá-lo a qualquer momento.

E neste instante Dona Eulália passa por este momento, sentada à beira de sua janela, observando a vivacidade com que as crianças correm e brincam na rua, esbanjando energia, enquanto a sua própria está a esvair-se.

Com sua idade já avançada e de anos incalculáveis, ela relembra a juventude. Os tempos áureos que, nesta mesma vila onde mora, era conhecida como curandeira, a melhor parteira das redondezas. Entendia das melhores ervas, dos melhores encantamentos. Respeitada e ao mesmo tempo temida.

Ela ri dessas lembranças e das inúmeras outras das quais já viveu, sabendo que hoje não passa de uma velha de poucos truques, talvez o novo terror da criançada.

Durante sua existência já cometeu diversas bondades, assim como crueldades de igual tamanho. Sua essência não é má ou boa, sempre fez o que deveria ser feito. Recomeçando uma nova vida, uma nova jornada, sempre que for preciso, no intuito de reparar eventuais erros do passado. E como qualquer um, é apenas mais uma peça neste jogo pela sobrevivência.

Observa uma última vez as crianças na rua. Pressente a morte mais próxima, como se dedos compridos e gélidos estivessem a tocar sua face. Um abraço frio e mortífero. Mas Dona Eulália sabe o que fazer, sempre soube, desde os primórdios da humanidade. Aquela sensação de que já passara por isto. E neste caso, não poderia ser mais verdadeira.

Uma criança para, repentinamente, de brincar com as demais e percebe que a velha senhora está a observá-la. Como que por instinto, ou curiosidade, ela deixa a rua calma da vila e se aproxima de sua janela. As outras crianças não dão por falta, continuando a explorar sua vivacidade e inocência típica.

Dona Eulália acena à ovelha desgarrada, com um sorriso tão dócil quanto de um filhote felino, fazendo um gesto para que entre. É o que a gentil criança faz, abrindo a porta lateral da casa, entrando numa sala pouco clareada, de mobília antiga e cheiro de mofo no ar. Fixa o olhar na senhora sentada em sua poltrona de couro desgastada.

Ela faz outro gesto, para que se aproxime mais. Ao seu lado, em cima de uma escrivaninha, ela retira um biscoito de um pote. Oferece. O pequeno ser à sua frente arregala um sorriso, perde o medo ou a curiosidade que o trouxe aqui. Devora o doce, pegando outro em seguida.

A velha passa seus dedos sobre o rosto da criança. Ao mesmo tempo em que sente sobre o seu próprio as digitais frias da morte. Percebe o tempo fechar, a visão escurecer e sua última centelha de vida prestes a apagar-se. Precisa agir rápido.

Em seu derradeiro suspiro, inspira para seus pulmões o pouco ar que lhe resta, sugando a vivacidade do inocente e estufando o peito. Guardando em si toda a sua alegria, desejos e anseios da vida, sua juventude. Deixando-a paralisada à sua frente, com os olhos vidrados.

A morte finaliza seu abraço, cobrindo o rosto envelhecido da velha com suas mãos, apertando as bochechas, forçando-a a cuspir algo. Sua alma, outra vez mais, se prepara para driblar as artimanhas do além-mundo.

Ela expira, libera seu último folego. Espalha no ar toda sua história, sua essência, que encontra caminho nos lábios puros à frente. O velho corpo, por sua vez, jaz amolecido sobre a poltrona, dando significado à jovem criança que recupera seu vigor, mas sem sua outrora inocência. Nasce uma nova Eulália.

Assim como seus instintos primitivos a fez sobreviver por tanto tempo, também é instintivamente que abre a gaveta da escrivaninha, retirando uma agulha já enlaçada por uma linha grossa, deixada ali por seu antigo invólucro. Eulália sobe pela poltrona, sentindo dificuldade em adaptar-se às novas circunstâncias.

Um pensamento paira em sua mente, memórias de outra era e uma fagulha de tristeza. Ou seria remorso? Observa pela última vez o corpo que lhe fez companhia por tanto tempo, apontando-lhe a agulha.

Aos poucos costura os lábios envelhecidos e murchos, selando pela eternidade a inocência perdida. O jogo pela sobrevivência continua, trocando apenas a peça principal por outra de igual serventia.

Eulália deixa a casa, chama as outras crianças. Finge surpresa. Conta entusiasmada sobre o corpo da velha senhora, encontrado costurado em sua própria sala. E a vida, como de costume, continua.

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Estudante de Artes, consumidor compulsivo de HQs, amante da psicodelia, sonhos, nonsense, teorias da conspiração e colagens. Um mutante. Autor da Central dos Sonhos. + www.filfelix.com.br